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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Adhemar: De São Caetano para a Alemanha com a patada de Tatuí

JOGO EM PAUTA - Adhemar Ferreira de Camargo Neto nasceu em Tatuí (SP), e apareceu para o futebol brasileiro com uma idade em que muitos atletas já se preparam para encerrar a carreira. Ele tinha 28 anos, e depois de muitas passagens por equipes do interior paulista, surgiu no São Caetano, e entrou para a história ao levar o clube do ABC a disputar a final do Campeonato Brasileiro de 2000.

Dono de um dos chutes mais fortes do futebol brasileiro, Adhemar marcou gols que ficaram marcados na história. Diante de 56 mil torcedores no Maracanã, Adhemar bateu uma falta da zona intermediária de ataque, fazendo com que o modesto São Caetano eliminasse o Fluminense da Copa João Havellange, no ano 2000.

Ele foi ouvido pelo site Jogo em Pauta e na entrevista a seguir contou curiosidades sobre sua carreira, as dificuldades para se tornar um atleta profissional, além de sua passagem pelo futebol alemão.

Jogo em Pauta: Quais foram os momentos mais difíceis na sua carreira de atleta profissional de futebol?

Adhemar: Os momentos mais difíceis que tive foi quando cheguei ao São Caetano. Foi no ano de 1997, e esse momento complicado permaneceu até 1999, principalmente por conta da passagem de vários treinadores. Não conseguia me firmar entre os titulares, coisa que só aconteceu com a chegada do Jair Picerni ao clube. É muito complicado para os aspectos psicológicos porque quando você não atua, várias coisas passam pela sua cabeça. Quando fui jogar no futebol da Alemanha, outros fatores dificultavam a adaptação. Eu fiquei lá dois anos e tentei fazer o meu melhor. Na Europa, enfrentei várias situações difíceis, como por exemplo em relação à adaptação ao sistema de jogo, alimentação, cultura o clima; e dentro do que eu me propus, eu ajudei o clube a permanecer na primeira divisão. E o Stuttgart se mantém até hoje na primeira divisão num campeonato que tem o nível muito alto.


Jogo em Pauta: Qual sua opinião sobre o novo mercado do futebol chinês que se abre aos atletas brasileiros?
Adhemar: O futebol chinês é um novo mercado se se abre ao futebol mundial. Antigamente, esses novos mercados eram representados pelos países árabes, e posteriormente o Japão. A China está em primeiro lugar no mundo em quase todos os aspectos. No mercado econômico, nos esportes olímpicos, afinal o país sempre está entre os primeiros no quadro de medalhas dos jogos olímpicos. Agora a tendência está voltada para o futebol chinês. Afinal de contas, a China está se preparando para isso, assim como o Japão fez anos atrás. Inclusive o Japão já disputou e sediou Copa do Mundo. Vários profissionais brasileiros foram atuar lá: Zico, Leonardo Toninho Cerezo, Nelsinho Baptista, que foram percursores desse desenvolvimento. Então, o futebol japonês evoluiu de um estágio semiprofissional para o profissional. Graças à exportação de mão de obra brasileira no futebol, creio que a China alcançará o mesmo estágio que o Japão e a Coréia já têm no futebol asiático.
Jogo em Pauta: Você jogou no futebol do Japão, e retornou ao futebol brasileiro pensando em encerrar a carreira jogando num clube daqui, mas não conseguiu. É uma frustração em sua carreira?
Adhemar: Eu voltei do futebol japonês e queria me despedir jogando pelo São Caetano. Na verdade eu ainda tenho esse sonho. Infelizmente, fui obrigado a abandonar os gramados por conta do meu problema de hipertireoidismo. Vários jogadores que fizeram história pelo São Caetano, ainda esperam esse reconhecimento. Afinal de contas, levamos o São Caetano a feitos inimagináveis para um clube de pequeno porte. Disputamos finais de dois campeonatos brasileiros seguidos, além de chegarmos à final da Libertadores. Isso sem contar o título paulista de 2004. Ainda esperamos por esse reconhecimento, mas sabemos que no mundo do futebol a ingratidão é muito grande; e com isso eu fico um pouco chateado.

Jogo em Pauta: Você conhece bem o futebol alemão, pelo fato de ter atuado na Bundesliga. E o Brasil foi eliminado da última Copa do Mundo sofrendo uma goleada histórica de 7 a 1 frente à Alemanha. Num jogo de dois favoritos, numa copa do mundo disputada em casa, para você esse resultado foi uma surpresa? Houve uma pressão na equipe brasileira pelo fato de jogar em casa, ou a Alemanha estava realmente muito à frente do Brasil?
Adhemar: O resultado aplicado pela Alemanha foram os frutos de um excelente trabalho que eles realizaram. No futebol de lá, a prioridade é a organização e a seriedade tanto dos clubes, quanto da federação alemã. E isso possibilitou que o trabalho fosse realizado com profissionalismo. O Alemão pensa o futebol de maneira coletiva, em que a obediência tática é fundamental. No futebol brasileiro acontece justamente o contrário. Nosso sangue latino nos dá a tendência ao desespero, ao contrário da frieza alemã. Tudo o que foi plantado pelo futebol alemão, ou seja, a goleada aplicada na Seleção Brasileira e o título mundial representam muito pouco em relação a todo o trabalho que foi feito por lá. Temos muitas estrelas no futebol brasileiro, mas devido ao ego individual, essas estrelas não brilham e uma acaba ofuscando a outra. Ao contrário do futebol alemão, em que a prioridade é o coletivo. Quando joguei lá, e saímos perdendo um jogo. No meu pensamento, eu queria logo empatar a partida. Mas meus companheiros me pediam paciência. No Brasil é o oposto. Quando se toma o primeiro gol, logo chega o desespero. Com isso, falta organização e obediência tática dentro da partida. São características que sobram nos alemães, mas faltam nos brasileiros.

Jogo em Pauta: Se você fosse convidado a ser técnico do São Caetano aceitaria o desafio? Ser técnico é algo que passa pela sua cabeça?
Adhemar: É difícil que eu venha ser treinador do São Caetano. Mas eu gostaria de trabalhar no clube, fazendo parte da organização. Isso é importante para o atleta enquanto ser humano, pois muitos encerram a carreira, e não estão preparados para a vida pós -futebol. Eu gostaria de ser útil de alguma forma, creio que minha experiência dentro de campo poderia ser interessante ao clube. Mas infelizmente, os dirigentes preferem dar oportunidades a outros profissionais ao invés de nos colocar lá, que temos história e já lutamos pelo São Caetano.

Jogo em Pauta: No futebol, qual foi o momento mais importante da sua carreira?
Adhemar: O momento mais importante da minha carreira foi quando eu percebi que deveria ser profissional e não boleiro, treinar, me dedicar, respeitar horários e o momento de glória foi o gol no maracanã, contra o Fluminense pela Copa João Havelange de 2000.

Jogo em pauta: Você tinha 28 anos de idade quando apareceu para o futebol brasileiro. Foi o seu auge. Você estava no lugar certo no momento certo?
Adhemar: Aos 28 anos estava no São Caetano, será que era o momento certo? Como estávamos numa equipe pequena e chegamos à final, a visibilidade foi muito grande. Fico muito feliz de ter feito parte daquele grupo que foi a Família Azulão.

Jogo em Pauta: Na sua opinião o que faltou para que o São Caetano pudesse conquistar os títulos brasileiros nas duas finais que disputou? E em relação à Libertadores? O resultado do jogo final entre Vasco x São Caetano na Copa João Havelange foi justo por conta dos acontecimentos em São Januário?
Adhemar: Foi uma injustiça a perda do título em 2000, principalmente por conta dos acontecimentos nos bastidores em São Januário. Naquela partida final, nós perdemos o foco e acabamos perdendo o título no Maracanã. No ano seguinte, em 2001, perdemos para o Atlético Paranaense, num lance bobo em Curitiba. Com relação à Libertadores foi o auge, um orgulho pois o São Caetano, com menos de 25 anos de história chegou à decisão, coisa que muitos outros times não conseguiram. A derrota, infelizmente, faz parte e por isso mesmo, que o futebol é emocionante.

Jogo em Pauta: O hipertireoidismo que você teve é o mesmo problema que teve o Ronaldo Fenômeno?
Adhemar: Eu tive o problema de hipertireoidismo, mas faço tratamento com medicamentos ingerindo hormônios sintéticos. Essa questão de saúde, é muito complicada porque nós jogadores de futebol, nunca estamos preparados para encerar a carreira. Só que o término faz parte do futebol. Enquanto estive lá, no campo de jogo, eu tentei dar o meu melhor e procurei deixar a minha marca. Entretanto, nem sempre as coisas saem como planejamos. Deixei o meu legado no futebol, e acredito que aqueles que conviveram comigo podem falar mais de mim do que eu mesmo.

Jogo em Pauta: Quais são os objetivos de sua escolinha? Ela é voltada mais para o social ou para revelar futuros jogadores?
Adhemar: Nossos objetivos no Porto Feliz Centro de Aperfeiçoamento é preparar os atletas nos aspectos físicos, técnicos e psicológicos. Afinal de contas, alguns podem chegar à fama, outros não, de modo que a preocupação social é importante. Procuramos dar condição para que o atleta se desenvolva. Além disso, essa história de que empresário de futebol coloca jogador onde quer não é uma verdade absoluta, pois o principal diferencial ainda é o talento, que possibilitará o atleta chegar onde ele deseja.

Foto: Arquivo pessoal

Jogo em Pauta: E o Adhemar comentarista esportivo. Poderia apontar três times brasileiros favorito a conquistar títulos na temporada 2016?
Adhemar: O futebol brasileiro passa por um período de extrema rotatividade, com mudança de elenco dos clubes. Vivemos numa época de semiprofissionalismo, pois algumas pessoas que não conhecem futebol estão no comando. Veja só no futebol europeu, o Zidane está treinando o time B do Real Madrid, e aqui no Brasil isso não acontece. Por isso, é complicado escolher os três favoritos a títulos no futebol brasileiro, pois as circunstâncias podem mudar tudo no meio do caminho.

Jogo em Pauta: Quais foram os momentos mais marcantes na sua passagem pelo Sttutgart?
Adhemar: Bati um recorde no Sttutgard, pois fui o primeiro jogador estrangeiro a marcar três gols no jogo de estreia. A curiosidade na minha passagem pelo futebol alemão é que os atletas não podiam levantar a camisa ao comemorar gols, e eu, recém chegado à Alemanha, não tinha essa informação e levantei a camisa.

Jogo em Pauta: Qual sua opinião em relação ao atual campeonato paulista? Você acredita que o Paulistão possa perder espaço para as novas ligas interestaduais?
Adhemar: O Campeonato Paulista ainda é muito forte, tem um nível muito alto, pois os times do interior tem muita qualidade, e a disputa é equilibrada tanto na série A1 quanto na A2. Com relação à criação da Liga dos clubes brasileiros, seria positivo, pois facilitaria para os clubes nos momentos de negociar direitos de transmissão de televisão e outros assuntos relacionados aos aspectos financeiros. Entretanto, o campeonato estadual não pode acabar. Os torneios estaduais deveriam sim, ter o sistema de pontuação classificatório para os torneios nacionais, para que os times do interior também pudessem aparecer na mídia. Afinal de contas, os times do interior ainda proporcionam muita emoção ao torcedor.

Por Ivan Marconato para o site Jogo em Pauta (www.jogoempauta.com)

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