domingo, 1 de janeiro de 2023

poema | Cristina Siqueira




Nada é o que parece ser

Ao fim 2022 chega ao fim

Sai de mim
sabor viciante do excesso
de trabalho

Estado negativo
das notícias que se atropelam
Quase morta

É o cansaço

Psiu, silêncio
Quero escutar a minha verdade

Vozes demais
Tonta eu ao olhar para múltiplas direções

O coração
Oráculo que fala a verdade
Ouço

Espelho partido
O último passo dissolveu-se
Diante de mim
- Aonde tenho que ir?

Quero não ser
Estado oco

Ovo
Abrigo da casca
Branca pele fina e macia

Nasci um dia

A voz que brinca
Voa para o céu
Palavras andorinhas

Inocência puída
Pelos embates da vida
Sai de mim amargor !

Não tenho que nada
Olho para a sapatilha de ponta
Eu não sei dançar balé

Quando menina senti ciúmes
de Ilona , uma bailarina
Nunca a vi
Mas meu pai dizia que ela era linda
E dançava bem

Já passou
A bailarina que não fui

E me sei
Mesmo no ar
Das dúvidas frequentes

Pendo para algumas cores
As leves
Escolho lavanda digital
E branco paz

De verdade
Indo por mim
O ano foi positivo
Em tudo fui bem sucedida
O sucesso pago com empenho
Lanço o livro
“Eu comigo conversando com o umbigo “
Cuidei de mim e dos meus
Fiel ao que propus
Entrego o Projeto “ Era tanta ternura que virou doce “
Remexo na raiz que brotou da terra
Floresci

Que minha obra chegue
antes do cartão de visita
Que eu chegue antes de mim

Revisito a desordem da poesia
Sem métrica qualificada
Palavras brotam entre os seios
Estrofes de versos
Saltitam livres
Entre os bojos do sutiã
Cor de chocolate

Invisto nos dons que me agraciam
Aposto no talento
Promessa de mínimo esforço
Um nada a fazer , fazendo
Paixão e suor são aditivos

Fluo na criação
Como o cisne nas águas do lago

Escolho o estilo de vida
Em que o oposto tem vez
Da contramão chega a solução

Especialista em desvio
Em rota de colisão

Fluo em direção ao vazio do branco preencho com cores a alegria
Que não sei de onde vem
Talvez de um roto vestido de festa
Puído de lembranças
Que a traça não roeu

Um vidrinho de perfume
Aroma que perdura
Nas mãos em concha
Aspiro olor da ventura

Visto a tendência da moda, couraça que me protege
da falta de sentido
do despropósito caótico
agravado pelo irado conflito
De achismo

Cansada de malabarismo

Preciso imunidade
ao absurdo desmando
Atuo no invisível
Entrego a Deus o comando

É de joelhos que voo sem asas
Na verdade chegar é relativo
Fluir no desfrute do caminho
A vida é ir

O pronome do Amor é nós

Trato com carinho o positivo
Não há dia facultativo
Nem tenho tempo para envelhecer

Não posso olhar o mundo
Com olhos cegos
Na esquina alguém estende a mão
As mães de leite seco
Guerras do cotidiano
Elimina a população
A besta subjuga os homens
de celular na mão
A guerra começa
com um passo em falso

Mas posso guardar palavras
No cofre escuro do peito
E víveres no bunker
atrás da pedra de Ali Babá
A fábula sem moral da história

Silêncio é força motriz
Durex na boca
Preserva a sobrevivência
Da moral em falência

Passo ao largo
Desta batalha de ogros
A besta é o chip
Implante na palma da mão

O real é surreal
Narrativas se sucedem
Venda em pregão de peixes
Promessas e esperança
Evidência é ficção

Atuo no invisível
Palavras se criam
Rente ao umbigo

Tem crianças no caminho do atropelo
A fome usada como moeda
Para o bilhete do fim
Todos num balaio de gatos
Negros , brancos , pardos
Cor de caramelo
E a gata loira platina
Sofre bullying na esquina
O miúdo olhar do gato chinês

Quem manda bate o martelo
Sumário o navalhar
Do cancelamento
Sem voz e sem lamento
Não se iluda
Quem acha que está com tudo
Peso morto é pedra
não se desloca com o vento

Na projeção do atual momento
Estou no ar de um estado torto
E falta gás na Europa
O frio gela o avesso
O homem está nu
Morto por dentro

Para a maratona irracional
Vida passa a ser anti natural
Criatório de vírus mortal
- Por que humanos
se existe inteligência artificial ?

Gente gravemente doente
Gente deixou de ser gente
A guerra de um outro jeito
Que nem posso imaginar

Na massa do pão
Muita farinha
Perdeu o ponto
Adeus liberdade
Pobre expressão
Excesso de realidade
Palma que amassa
Sobra-lhe a casca
Recheio fake de algodão

Banir de mim a ilusão
A passagem pela vida
Em processo de usucapião
Lei assinada na costa do alheio
Que chora o seu dono
De roldão vai o mundo inteiro
Não espere cair do céu
O seu , o nosso dinheiro

Impossível se realizar
sem o exercício da fé
Impossível prosperar
sem gratidão

E neste fim de ano
que em redundância finda
Quero o meu rosto
Desperto , vigilante
E o aceite tanto da luz
Como da escuridão
As mãos postas
entregues a oração
Quero a luminosidade
Nascente
Superar a dualidade
É urgente
Uma voz que brinca
Ao falar das coisas sérias
Quero ressurgir
em direção ao céu
Onde ajeito o meu espírito
Levitar é o melhor veículo
Sou complexa
E por isso simples
Quero mais
E por isso menos

Cristina Siqueira

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