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Tatuí, 


domingo, 4 de fevereiro de 2018

crônica / Ana Moraes

O pergaminho

O portador de símbolos impressos empiricamente sobre a pele de um animal qualquer ou um trançado de composições vegetais, enrolado e guardado para aqueles que o podiam e ainda o podem ler. Esse é o pergaminho, em sua forma cilíndrica e requintada, com sua envergadura natural que lhe faz contrair-se por si só para esconder o seu conteúdo, como uma mulher nua que a todo custo esconde suas preciosas constituições e geometria divina.

Os pergaminhos foram importantes elementos para a pictografia, para o armazenamento do conhecimento humano, aliviando parte da memória destes. O verbo se fez tinta e o conhecimento e informações, extraídos dos emaranhados neurais, puderam ser lidos e relidos a qualquer tempo.

Apesar de artefato antigo, sua essência ainda prevalece em certas organizações empresariais. Uma delas são as companhias de ônibus para turismos. Imersos na tecnologia virtual, ainda dependemos de algo físico, como se fosse algo reconfortante, já que a virtualidade pode nos assustar ao nos retirar da realidade física.

Ao esperar na fila do guichê, onde as pessoas anseiam pelos seus futuros trajetos, as atendentes trabalham para amenizar esses sentimentos, concedendo-lhes a tão desesperada passagem. E é esta que será comentada. Após a movimentação unidirecional da fila, chega-se no guichê para adquirir uma passagem que mais parece um pergaminho, mediante a quantia de papel e níqueis, os quais os humanos desgraçadamente batizaram de dinheiro. O atendente lhe pede para escolher a sua poltrona, demarcada numericamente, em uma tela proveniente de estudos da incerteza. Após a seleção, a pequena máquina ao lado inicia seu árduo trabalho depositando códigos linguísticos em um estreito papel, mas por sinal muito comprido. A máquina cospe aquele metro de papel que parece interminável. Aquelas letras e números nascendo incessantemente. Na medida que aquele papel impresso cresce, a atendente vai grampeando-o para torná-lo não muito enfadonho. Como um pergaminho sai aquele papel que concede a entrada no ônibus.

Num relance de curiosidade, alguma coisa lá no fundo da sua mente, lhe pergunta o que deveria haver naquele contingente de palavras miúdas que parecem se espremer para não ser lidas, como se escondessem dos olhos alheios. Ao ler aquele pergaminho vê-se que aquilo tudo parece ser insignificante em um primeiro momento. As palavras parecem estar lá apenas para dar robustez e essência prolixa àquele papel pergaminho. Poderia ser algo útil e relacionado a viagem, como um mapa ou as rotas, mas não, é um monte de palavras que ninguém quer dispender tempo e olhos naquela desprezível existência.

Espera-se o ônibus encaixar-se na plataforma com elegância na sua curvatura. Então a porta abre, bufando ar. Os passageiros se alinham ansiosos para adentrar aquele direcionador, que nos conduz ao destino desejado. Se a vida fosse apenas entrar em um ônibus e se deixar levar... O motorista sai do ônibus, justamente vestido em seu austero e imponente traje, como se a costureira moldasse a argila em seu corpo, esculpindo na argila seus detalhes que vedam elegantemente a sua nudez. Os passageiros serenamente entregam-lhe a metade do pergaminho, o qual ele lê as coisas mais importantes: os dados pessoais e da viagem, que totalizam um par de linhas, desprezando insensivelmente os outros escritos. Outras aguardam fora da fila para deixar seus apetrechos na não sei que classe, sem ar condicionado, sem água, sem comida, sem cinto de segurança e ainda no escuro. 

Os passageiros entram confortavelmente e ajeitam-se em seus exatos lugares, de preferência. Então o motorista dá partida e inicia-se a viagem. Metade do pergaminho ainda continua e resiste em algum lugar entre as posses físicas e morais dos passageiros. Alguns o abandonam displicentemente no chão do ônibus ou na poltrona. Loucura é pensar que por mais que a viagem seja a mais longa, não seria possível ler e compreender a grandiosidade daquela metade do pergaminho. 

Nem sempre o que está escrito em algum lugar é para se ler. Muitas vezes são apenas informações com validade contextual muito curta, caracterizando a atual sociedade em que se vive, imersa em uma profusão de palavras sem valor algum, pois o que vale nesta sociedade são as faces insensíveis e animais inocentes impressos em papéis multicoloridos que circulam com validade acronológica.


A.M.O.R.
(Ana Moraes de Oliveira Rosa)

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