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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Três caratecas de Tatuí obtêm vaga para competir na Bélgica

Atletas representaram o estado de São Paulo no 19º Campeonato Brasileiro de Karatê

Por O Progresso - -25/09/2018

Trio vive a expectativa da competição na Europa (foto: Eduardo Domingues)

Três atletas do município representaram o estado de São Paulo no 19º Campeonato Brasileiro de Karatê, ocorrido nos dias 7, 8 e 9, de setembro, na cidade de Maracanaú, no Ceará. Com os resultados alcançados, eles farão parte da seleção brasileira que irá disputar o mundial da categoria na Bélgica.

O sensei da escolinha municipal de caratê, Paulo Sérgio Duke, que compete na categoria máster B, para atletas de 40 a 45 anos, faixa marrom e preta, conquistou duas medalhas: prata no “kata” e bronze no “shiai kumite”.

O atleta Hélio Márcio Oliveira da Silva, da categoria máster A, de 40 a 45 anos, da faixa laranja a roxa, garantiu a medalha de ouro no “kata” e prata no “shiai kumite”.

Já a carateca Pâmela Aparecida de Camargo conquistou a medalha de bronze em disputa do “shiai kumite”, para atletas de 18 a 34 anos, mais de 58 quilos, faixa vermelha a verde.

A modalidade kata é um combate imaginário, em que o carateca realiza os movimentos de uma luta, mas sem oponentes. E a modalidade shiai kumite é a tradicional, em que os atletas enfrenta os adversários.

Os três caratecas fazem parte do projeto “Karatê Para Todos”, que ocorre no Departamento Municipal de Esportes. Sob o comando do próprio sensei Duke, cerca de 150 alunos, de idades variadas, treinam no local, gratuitamente, às terças e quintas, às 18h e às 21h.

O projeto é filiado com a Acak (Associação Cooperativa de Academias de Karatê), FPK (Federação Paulista de Karatê) e FBK (Federação Brasileira de Karatê). Com isso, todo mês, os alunos podem disputar torneios para conseguirem participar de competições oficiais.

Os torneios oficiais são o Campeonato Paulista e a Copa São Paulo, disputas que classificam os dois primeiros atletas de cada categoria para a seleção paulista no Campeonato Brasileiro, ocorrido neste mês.

Com 35 anos de carreira no esporte, Duke participou do evento no Ceará como atleta e árbitro. Segundo diz, ele busca “fazer um trabalho para o crescimento e desenvolvimento do caratê, no estado e no país”.

Pâmela e Silva estavam participando pela primeira vez de uma disputa nacional. Ambos garantiram que foi “uma sensação maravilhosa, única e impossível de descrever”.

“É igual como descrever o sabor de uma fruta, não tem como, se você não experimentou o gosto dela”, exemplificou Silva.

A classificação para o campeonato mundial, que deve ser realizado na segunda quinzena de novembro, foi possível através do acréscimo de duas vagas por categoria.

Segundo Duke, até 2016, apenas os atletas campeões conseguiam a qualificação. “Uma mudança no regulamento proporcionou para mais pessoas a oportunidade de sonhar alto”, afirmou Duke.

Silva afirmou que espera ter sido a primeira competição nacional de muitas que ainda pretende participar. Para isso, no entanto, lembra que, além da continuidade do projeto amparado pela Prefeitura, dependeria do apoio da população e dos empresários do município.

Este é o mesmo empecilho citado pelo sensei. Segundo ele, o “Karatê Para Todos” possui, aproximadamente, de 25 a 30 atletas prontos para participar de competições, mas nem todos têm essa chance, devido à crise financeira.

Conforme Duke, a municipalidade ajuda com o transporte, mas o pagamento de inscrições para campeonatos paralelos deve ser feito pelos atletas ou responsáveis.

“Infelizmente, não temos um empresário ou alguém que possa nos auxiliar na questão financeira”, expôs.

Silva está desempregado há dois anos e não tem conseguido participar de disputas paralelas que servem de preparação para as competições oficiais. Desta forma, ele depende apenas dos treinos do projeto para participar dos torneios oficiais, com ajuda da Prefeitura.

De acordo com Duke, no momento, a presença dos caratecas na Bélgica ainda é incerta, embora eles estejam recebendo apoio da Prefeitura e de vereadores, auxiliando-os a “galgar novos patrocínios para viabilizar a ida para a Europa”.

Está seria a oportunidade mais próxima de participar de um mundial, segundo o sensei. Ele obteve a classificação em 2003, 2004 e 2007, mas não conseguiu ir, justamente por conta da dificuldade monetária.

“As Prefeituras das cidades que eu competia na época nunca se manifestaram em me ajudar, mas, desta vez, acredito que vai ser diferente”, relatou.

Duke sustenta que, mesmo com financiamento da Prefeitura em relação a passagens e hospedagens, os atletas ainda dependem de ajuda para a alimentação.

O sensei falou que, no Brasil, “comeria um pastel e tomaria um suco com R$ 10”, algo “impossível” na Bélgica, por conta da moeda local. Na cotação atual, € 1 equivale a R$ 4,83. Mas, Duke mantém as esperanças.

“Estamos na expectativa de poder participar. Se Deus quiser, nós iremos, vamos acreditar que as pessoas também queiram”, disse. “Nós já alcançamos um feito enorme, fomos muito longe para parar agora”, salientou o sensei.

A disputa mundial terá a participação de delegações de dezenas de países, e Silva está sonhando em mostrar ao mundo a bandeira tatuiana.

“Vou providenciar uma bandeira da cidade, para que, na hora que subirmos ao pódio – que é o nosso grande sonho -, possamos levantar um símbolo de Tatuí”, afirmou o carateca.

Duke revelou que, após a obtenção da classificação para a disputa mundial, a equipe dobrou a carga horária semanal de treinos. “Estamos treinando e fazendo a nossa parte, nos dedicando muito para termos a oportunidade”, falou.

O sensei afirma ter voltado “maravilhado” da disputa nacional, segundo ele, não pela conquista das medalhas, mas por serem oriundas de um projeto social.

Ele diz que não há contratações de atletas para a disputa de campeonatos e que depende, apenas, dos caratecas do projeto para conquistar títulos. Segundo ele, isto auxilia no desenvolvimento dos competidores.

“Tenho de valorizar a prata da casa. Como os atletas daqui irão se desenvolver se eu não confiar neles? Quando terão a chance de representar o próprio município?”, indagou. “O dinheiro que se gasta para contratar um atleta de fora pode e deve ser investido nos atletas locais”, declarou.

Duke contou que já tentaram contratá-lo algumas vezes, mas que não se imagina competindo por outra cidade e enfrentando amigos e atletas de Tatuí.

“Por mais que muitos pensem diferente, eu considero uma traição. O dinheiro vai acabar, mas a amizade e a parceria duram anos e mais anos”, afirmou.

O sensei expõe que o “Karatê Para Todos” não se preocupa em ensinar os movimentos da arte marcial para os alunos. “O desejo é proporcionar uma ferramenta que os ajude a se tornarem melhores pessoas no dia a dia”.

Conforme Duke, os treinos são lotados de crianças e, dependendo do dia, não há espaço suficiente no tatame para todas treinarem.

Para participar, ele afirma que o projeto cobra somente o boletim escolar e o comportamento das crianças. Se não estiverem com boas notas ou a conduta não está sendo favorável, elas perdem a chance de realizarem o exame para troca de faixa e não participam das competições.

“Não estamos aqui para ditar regras a ninguém, mas, se um menino não está bem em casa ou na escola, o caratê não vai ajudar ele. A arte marcial vem como um complemento para o desenvolvimento”, ressaltou.

O trabalho do projeto visa estimular o potencial de cada um. Segundo os três novos integrantes da seleção brasileira, isto só é possível quando o atleta não “enxerga” o caratê como uma arte marcial, mas como uma “filosofia de vida”.

Silva e Pâmela disseram que, com essa nova filosofia de vida, deixaram as constantes irritações para trás.

“Quando alguém me fechava no trânsito, eu brigava e discutia. Hoje, consigo dizer um ‘vai com Deus’ ou ‘vá em paz’”, contou Pâmela. “Hoje, estou muito mais calma e responsável, foi uma transformação da água para o vinho”, completou.

O sensei revela que perdeu os pais com apenas quatro anos de idade e foi um projeto, semelhante ao local, que o salvou. Segundo ele, a realidade que vivia dava a oportunidade de beber e usar com drogas.

De acordo com Duke, ele era o caçula de uma família de 12 irmãos e o único de pai diferente, mas o sensei Antônio Lemes sempre o orientava. Então, desde criança conseguiu “ver no esporte a possibilidade de ser uma pessoa diferente”.

Conforme o sensei, as dificuldades fizeram com que ele, hoje, ministrasse aulas em um projeto, por acreditar que poderia “mostrar um caminho” a outras crianças que sofrem e são flageladas pela vida”.

“O caratê pode ser a oportunidade de transformação da vida delas, se quiserem, assim como foi para a minha”, finalizou o sensei.

Na terça-feira da semana passada, 18, o vereador Miguel Lopes Cardoso Júnior foi o autor de três moções de aplausos e congratulações parabenizando os caratecas durante a sessão ordinária da Câmara Municipal.

Já na quinta-feira, 20, a prefeita Maria José Vieira de Camargo recebeu, no paço municipal, os atletas tatuianos. Além de Cardoso Júnior, os medalhistas estiveram acompanhados do secretário do Esporte, Cultura, Turismo, Lazer e Juventude, Cassiano Sinisgalli, e do diretor de esporte Douglas Dalmatti Alves de Lima.

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