sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Doce, música e turismo: por que Tatuí ganhou o título de Estância Turística

Cidade completou 200 anos de fundação na terça-feira (11). Diferentemente de estâncias conhecidas atrativos naturais, Tatuí apostou na cultura como um dos principais diferenciais.

Por g1 Itapetininga e região, com edição do DT

Praça Martinho Guedes, no Centro de Tatuí (SP), tem piano desenhado — Foto: Prefeitura de Tatuí/Divulgação

11/08/2026 07h30 |  Tatuí completou 200 anos de fundação na terça-feira (11). O município paulista conquistou recentemente o título de Estância Turística do Estado de São Paulo.

Para obter a promoção, a cidade atendeu a critérios de infraestrutura e serviços. Tatuí subiu para a 5ª colocação geral no ranqueamento paulista.

Conhecida como Capital da Música, Tatuí apostou na cultura como diferencial turístico. A identidade local inclui tradições de doces, literatura e patrimônio histórico.

O repasse estadual ao município subiu de R$ 600 mil para R$ 2,5 milhões neste ano. Os recursos serão usados para revitalizar o Mercado Municipal.

Tatuí completa 200 anos como Estância Turística; entenda o que muda para a cidade

Ao longo de dois séculos, Tatuí (SP) construiu uma história marcada pela música e pelos doces, características que ajudaram a tornar o município conhecido dentro e fora da região. No fim do ano passado, a cidade ganhou mais um reconhecimento: passou a integrar o grupo das Estâncias Turísticas do Estado de São Paulo.

Na terça-feira (11), Tatuí completou 200 anos de fundação com uma programação diversificada. Mas, afinal, o que fez o município conquistar esse reconhecimento e o que muda na prática para moradores e visitantes?

A conquista não foi baseada apenas nos atrativos turísticos. Para receber o título, Tatuí precisou atender a uma série de critérios técnicos previstos na legislação estadual, que analisam desde a infraestrutura urbana até a gestão do turismo.

Segundo a prefeitura, em 2021, o município ficou na 21ª posição entre 140 cidades no ranqueamento estadual e permaneceu como Município de Interesse Turístico (MIT). Quatro anos depois, subiu para a quinta colocação geral entre os 214 municípios classificados e foi o primeiro colocado entre os MITs promovidos à categoria de Estância Turística.

O Sítio do Carroção, único resort pedagógico do Brasil, é um dos atrativos da Estância Turística de Tatuí (SP) — Foto: Prefeitura de Tatuí/Divulgação

Entre os critérios avaliados estão a existência de fluxo permanente de visitantes, oferta de hospedagem e alimentação, infraestrutura viária, saneamento básico, serviços de saúde, segurança, comunicação e sinalização turística.

Também são considerados a atuação do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), a existência do Plano Diretor de Desenvolvimento Turístico e uma equipe técnica responsável pelo setor.

Ao g1, o secretário adjunto de Cultura e Turismo, Rogério Vianna, afirmou que a classificação é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo dos anos por técnicos, conselhos municipais e diferentes secretarias.

"O ranqueamento envolve educação, saúde, desenvolvimento e vários outros aspectos. Não é um trabalho que começou agora. O Conselho de Turismo e os turismólogos vêm construindo isso há bastante tempo", afirmou.

Turismo além dos cartões-postais

Diferentemente de estâncias conhecidas por praias, montanhas ou outros atrativos naturais, Tatuí apostou na cultura como um dos principais diferenciais para a atividade turística.

A cidade é conhecida como Capital da Música por abrigar o Conservatório Dramático e Musical "Dr. Carlos de Campos" e também mantém tradições ligadas à produção de doces, à literatura, ao patrimônio histórico e a eventos culturais.

Segundo Vianna, o diagnóstico elaborado para a candidatura apontou justamente as manifestações culturais e a preservação dessas tradições como elementos importantes da identidade turística do município.

"A identidade. O modo de fazer. E quem faz o modo de fazer? São as pessoas. Nós temos uma coisa que é riquíssima", disse.

Entre as iniciativas citadas pelo município está o Prêmio Literário Nacional Paulo Setúbal, que neste ano recebeu inscrições de 375 municípios brasileiros, além de ações voltadas à produção artística e à preservação da memória local.

Rogéio Vianna, secretário adjunto de Cultura e Turismo de Tatuí (SP) — Foto: Larissa Pandori/g1

Como crescer sem perder a identidade?

Mas transformar tradição em atração turística também traz um desafio: crescer sem descaracterizar aquilo que tornou a cidade conhecida.

Há 71 anos morando em Tatuí, o professor e empresário Joaquim Machado Neto, conhecido como Joca, acompanhou de perto as transformações da cidade.

Para ele, o município cresceu, modernizou sua infraestrutura e ganhou novos espaços públicos, mas também perdeu parte da proximidade entre os moradores.

"A cidade era menor e a comunidade era mais próxima. Hoje ela está muito expandida e existe uma dificuldade maior de as pessoas se confraternizarem. Por outro lado, também existe a aceitação de que esse progresso é importante e que a gente consiga mudar para melhor", analisa.

Professor e empresário Joaquim Machado Neto, nascido e criado em Tatuí (SP) — Foto: Larissa Pandori/g1

Joca lembra, por exemplo, da transformação da Praça da Matriz, onde hoje funciona um calçadão que recebe apresentações musicais gratuitas aos sábados.

"Ficou um passeio muito interessante. A população tem acesso gratuitamente a shows de muita qualidade. Acho que isso também é um ponto bastante forte da cidade", diz.

Quem caminha pela Praça da Matriz pode se deparar com o monumento em homenagem a Bimbo Azevedo, cujo nome verdadeiro era Octávio de Azevedo. Instalada em 2009 e de autoria do escultor Cláudio Camargo, a obra retrata o célebre músico e compositor tatuiano em frente ao local onde ele nasceu, viveu e faleceu.

Atualmente, o imóvel que abrigou a casa de Bimbo Azevedo foi transformado em uma escola de inglês, que pertence a Joca.

Para o professor, a música continua sendo uma das principais marcas de Tatuí e ajuda a explicar por que o município é reconhecido fora da região.

"Qualquer lugar que a gente visita, as pessoas falam: 'Lá tem o conservatório, lá o pessoal é musical'. A história da cidade é muito recheada nessa questão musical."

Foto: Conservatório de Tatuí/Divulgação
Fundado em 11 de agosto de 1954, o Conservatório de Música e Teatro de Tatuí é uma das mais respeitadas escolas de música e artes cênicas da América Latina

O que muda com o título

A principal mudança prática para Tatuí está no acesso a recursos estaduais destinados aos municípios classificados como Estâncias Turísticas. O dinheiro pode ser utilizado em obras e projetos relacionados ao turismo, como revitalização de espaços públicos, sinalização, acessibilidade, qualificação de equipamentos turísticos e preservação do patrimônio.

Enquanto era MIT, o município recebia cerca de R$ 600 mil por meio do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos (Dadetur). Com a mudança para Estância Turística e a nova legislação estadual, o repasse para as estâncias passou a ser de R$ 2,5 milhões neste ano.

Conforme o secretário, parte dos recursos deve ser destinada à revitalização do Mercado Municipal "Nilzo Vanni", considerado um dos equipamentos turísticos da cidade.

Também estão em andamento intervenções no Museu Paulo Setúbal e a estruturação de um complexo de memória formado pelo Museu da Imagem e do Som, Memorial do Rugby e outros espaços culturais.

O aumento dos recursos, porém, também vem acompanhado de responsabilidades. Entre elas está a necessidade de conciliar novos investimentos e crescimento urbano com a preservação do patrimônio histórico e cultural.

Segundo Vianna, a prefeitura trabalha na elaboração de um plano de patrimônio histórico para orientar a conservação dos imóveis e discutir possíveis mudanças com a população.

"Quando a gente perde essas tradições, a gente perde alguma identidade. A gente precisa buscar esse resgate", afirmou.

Para o secretário adjunto, o desafio é modernizar a cidade sem apagar características construídas ao longo dos 200 anos de história.

"Pode vir a modernidade? Tem que vir. Mas como manter essa história viva? É esse diálogo que tem que ser feito com a cidade."

Para o morador, a preservação dessa identidade também passa pela relação das novas gerações com a cultura. Mesmo diante das transformações tecnológicas e do avanço da inteligência artificial, ele acredita que a música e outras manifestações artísticas continuam tendo espaço.

"Sempre tem um lugar para o talento, para quem tem vontade de desenvolver esse contato cultural. O Conservatório está aí como uma grande prova de que a gente pode continuar", analisa.

Na avaliação do morador, preservar essa identidade passa também pelo incentivo à música desde a infância.

"Sempre fui favorável ao retorno do ensino musical nas escolas. A criança, desde pequena, interagindo com a música, se torna um cidadão mais sensível e mais criativo. O dom está no indivíduo, não na máquina."

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