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Tatuí, 


domingo, 23 de março de 2014

O homem mais rico de minha terra

JÁVIER GODINHO

DIÁRIO DA MANHà- Do nosso livro de leitura quando, adolescente, estudávamos interno no Colégio Diocesano de Uberaba, uma página permanece-nos na memória praticamente indelével: O homem mais rico de minha terra, de Paulo Setubal. Este autor, nascido em Tatuí, São Paulo, esbanjava talento e colecionava sucessos no manuseio da pena coruscante, como advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista, que lhe conferiu a imortalidade na Academia Brasileira de Letras.

O homem mais rico de minha terra era o relato da vida de seu Chico Pereira, descrito por ele como alguém que ficara ruim do juízo. Não cuidou de sua fortuna, nem a colocou a render juro em mão de fiança.

Antes, andou pelos bairros pobres de sua cidade. Viu os que tinham a panela vazia sobre o fogão apagado. Os que não tinham onde se abrigar nos dias de chuvarada. E seu Chico deu o seu dinheiro aos pobres. Deu-o evangelicamente, sem que os jornais trouxessem notícia, pois ele bem sabia o que estava escrito naquele livro amarfanhado, que ele lia há 50 anos (Mateus, 6,2): “Quando deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”

Quando terminou o último tostão, ele foi morar com seus beneficiários, com os quais passou o resto de seus dias convivendo com as privações que eram de todos, acumulando riquezas onde a ferrugem não corrói e os ladrões não roubam.


Ao pé da letra, seu Chico seguira a resposta de Jesus ao moço rico que lhe perguntara o bem que devia fazer para conseguir a vida eterna (Mateus, 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. E vem e segue-me”.
Sofrimentos voluntários não servem

para nada

Seria esse relato uma história real ou ficção?

O humilde escriba, autor destas linhas, não tem como verificar. A quem interessar possa, no entanto, oferece com satisfação os seguintes conceitos de O Livro dos Espíritos – Livro IV, capítulo II, Penas e Gozos Futuros:

Os únicos sofrimentos que nos elevam são os sofrimentos naturais, porque eles vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários não servem para nada quando eles nada fazem para o bem do próximo.

Crês que aqueles que abreviam sua vida nos rigores sobre-humanos, como fazem os bonzos, os faquires e outros fanáticos de várias seitas, avançam em seu caminho? Por que, antes, não trabalham para o bem de seus semelhantes? Que eles vistam o indigente, consolem o que chora, trabalhem por aquele que está enfermo, sofram privações para alívio dos infelizes, então sua vida será útil e agradável a Deus. Quando sofrem por si mesmo é egoísmo, quando sofrem pelos outros é caridade.

As privações voluntárias, em vista de uma expiação igualmente voluntária, têm algum merito diante de Deus?

– Fazei bem aos outros e merecereis mais.

Há privações voluntárias que sejam meritórias?

Sim, a privação dos prazeres inúteis, porque ela desliga o homem da matéria e eleva sua alma. O que é meritório é resistir à tentação que solicita aos excessos ou ao gozo das coisas inúteis, e tirar do seu necessário para dar àqueles que não têm bastante. Privar-se e trabalhar para os outros é a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã.

Podemos, nesta vida,resgatar nossas faltas?

– Sim, reparando-as. Mas não creiais resgatá-las por algumas privações pueris ou doando depois de vossa morte, quando não tereis mais necessidade de nada. Deus não tem em nenhuma conta um arrependimento estéril, sempre fácil, e que não custa senão a pena de se bater no peito. A perda de um pequeno dedo trabalhando apaga mais faltas que o suplício da carne sofredora durante anos, sem outro objetivo que o bem de si mesmo.

O mal não é reparado senão pelo bem, e a reparação não tem nenhum mérito se não atinge o homem no seu orgulho ou nos seus interesses materiais.

O arrependimento ajuda o progresso do espírito, mas o passado deve ser expiado.

Aquele que não dá senão depois da morte frequentemente é mais egoísta que generoso. Quer ter a honra do bem sem ter-lhe o trabalho.

Aquele que se priva, na sua vida, tem duplo proveito: o mérito do sacrifício e o prazer de ver os felizes que fez.

A expiação se cumpre durante a existência corporal pelas provas às quais o espírito está submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais ligados ao estado de inferioridade do espírito.

A morte do corpo não o torna perfeito, ele pode persistir em seus erros, em suas falsas opiniões, em seus preconceitos, até que seja esclarecido pelo estudo, pela reflexão e pelo sofrimento.

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