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Tatuí, 


sábado, 20 de julho de 2019

crônica | Ana Moraes


Dominó

E as pedras mexiam e dançavam, sem par, sobre a mesa, fazendo aquele rebuliço característico de mudas que ao se colidirem entre si emitem aquele som lascinante de uma dor rígida e seca. Todas de barriga para baixo escondendo seu valor, embaralhadas pela sorte ou pelo azar que as mãos alheias carregam em suas palmas. Então cada uma é recolhida, formando uma irmandade perfeita, de sete pedras para cada jogador.

As pedras alvas expõe em uma das faces um par de valores denominadas peculiarmente como: branca, pito, duque, terno, quadra, quina e sena (zero, um, dois, três, quatro, cinco e seis, respectivamente). O objetivo do jogo é ficar sem pedra primeiro do que os demais jogadores, lembrando que geralmente se jogam em duas duplas, cruzadas, com o parceiro fronteando o outro.

Sai então a maior pedra do jogo, o dobre de sena, e a partir desta, ramificam-se em duas pontas, formando pares de mesmo valor e transformando as duas pontas em valores diferentes quase que a cada jogada. Os dois caminhos possibilita sempre mais de uma saída, parafraseando o famoso provérbio, muitas vezes com várias variantes: “quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela”. Cada jogada é uma escolha, uma escolha que fazemos dentro de nossas condições, dentro das condições que a vida nos colocou. Nossas jogadas devem ser bem cautelosas, pois podemos prejudicar os demais jogadores e muitas das vezes o fazemos, equivocando-nos. A sede por vitória e pela glória pode ser muitas vezes devastadora, evitando que as demais pessoas possam viver, aliás, jogar.

Durante o jogo, gastamos as pedras pensando em prejudicar os nossos adversários. Damos “passe” em um, isto é, não deixamos os outros jogarem. Também damos passe em nós mesmos dentro de nossa própria ignorância. O jogo continua, em escolhas apenas para nos beneficiar. Tudo embasado em nosso arraigado egocentrismo, exaltado pelo gosto, não de vencermos, mas de sabermos que os outros perderam. Nem sempre a vitória consiste em ganhar. A vitória pode ser de todos, desde que seja construída em união, algo carente em nosso mundo.

No jogo, há um momento em que tudo pode acabar antes da hora, o chamado “fecha” em que não se pode jogar mais, pois não há pedras que se encaixem com as pontas, como se os olhos se fechassem. E assim, para vencer deve-se contar pontos, isto é, somar o total de pedras na mão. Vence aquele que tem menor pontuação e aqueles que guardam as pedras de maior valor são prejudicados. O desprendimento é essencial. Quantas heranças foram deixadas por ávidos seres que habitaram sobre essa Terra defendendo as suas riquezas e não se desprendendo da mesma peara serem felizes e vitoriosos, quando o “fecha” chegar? Quantos guardam ouro sobre ouro achando que são mais ricos do que os outros? E a ignorância ainda sempre vence, ainda sempre se quer segurar as maiores pedras em mãos, para no fim ter de entregá-las sem ao menos usá-las.

No fim, todas as pedras voltam para o mesmo lugar e deixam de pertencer a qualquer um. Mas infelizmente, o jogo continua e do mesmo jeito termina em uma contagem regressiva “dominaica” impreterível: sena-quina, quina-quadra, quadra-terno, terno-duque, duque-pito, pito-branca, bati.

A.M.O.R.
(Ana Moraes de Oliveira Rosa)

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