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Tatuí, 


segunda-feira, 15 de julho de 2019

crônica | Ana Moraes

Festa edulcorada

Um final de semana todo coberto de açúcar. Assim foi a festa do doce em Tatuí. 

As tendas envolviam a nave no centro da praça indo até as ruas que a ladeavam e os doces as ocupavam edulcoradamente. As guloseimas quebravam qualquer jejum ou dieta pois ninguém resistia aquele assédio, nem adiantava tentar.

Bolos, brigadeiros, balas, biscoitos, pastéis, açaí, e uma infinidade... Engorda-se apenas de se pensar. Não poderia faltar a especialidade da cidade, o famigerado doce ABC (abóbora, batata branca, batata roxa e cidra) que já é patrimônio cultural e gastronômico. O clima ajudava ainda a saciação em excesso. O frio instigava as pessoas a comerem. As pessoas chegavam internalizadas em seus jeans e xadrez se escondendo do gélido assédio. Algumas pomposas, com enfeites que tampavam a sua própria existência, outras quase desnudadas. Chegavam sozinhas, em casal, em família e entre outros conjuntos, objetivando, apenas, saciar os desejos oculares.

Além do mais, para as crianças, principalmente, havia um trenzinho, que mais parecia um ônibus paulista, todo iluminado, que partia da praça e dava uma volta na cidade, propagando a alegria e o espírito festivo, anunciando no alto-falante intermitentemente a história da cidade. Acompanhando o trem, havia duas pessoas vestidas de personagens clássicos do imaginário infantil, concretizando a felicidade de toda criança de vê-los bem perto e, ainda mais, dançando no meio da rua com o frio a bailar sem ser chamado.

O sino encimando a torre, em companhia dos pombos, acordava e badalava chamando os fiéis. Apesar da tentação exposta e tão próxima, haviam pessoas que não se deixavam levar pelo prazer mundano e, titubeando levemente, adentravam a bela matriz para saciar, primeiro, sua fome transcendental. Após o término da missa, aquele mar de gente inundou a festa na praça. Até os santos aguardavam ansiosamente o término da missa para irem à festa e desfrutarem nem que um pouco daqueles doces maravilhosos. Audaciosos, comeram seus doces sem mesmo ninguém ver. 

Naquela nave caída, ou melhor, coreto, floriu-se uma efervescência musical, indo do classicismo chorado pelas cordas e metais ao popular propagado pelos acordes e percussões modernos. Segundo alguns, até ocorrendo certos assassinatos musicais, que certamente, mereciam penas severas. A música se misturava com os sabores alheios, gerando uma sinestesia tão concreta que deleitaria, certamente, Leminski. 

Alguns entravam no embalo das músicas. Hilariamente, uma dançarina de rua, quase que onipresente em todas as festas, dançava ao seu jeito, desimportando-se com a crítica alheia e profissional, buscando apenas a felicidade em sua performance. Outro detalhe, é a presença de um senhor, muito famoso, que sempre registra em sua câmera semimoderna todas as festividades da cidade, um verdadeiro monumento móvel da cidade. Certamente, as festa citadinas ficam incompletas sem a presença dessas figuras ilustres.

Defrontando o coreto, estava uma plateia de várias idades desfrutando os sons variados, sentadas e de pé. A plateia estava embaixo de uma decoração despojada, composta por estruturas metálicas e guarda-chuvas em três cores: amarelo, laranja e rosa como uma pequeno mar colorido. Protegiam a plateia de uma chuva que estava com preguiça de deitar sobre o chão por causa do frio. 

Os guarda-chuvas abrigavam em seu colo lâmpadas incandescentes como protegendo a luz das trevas daquele céu escuro, iluminando a plateia. Protegendo as delicadas luzes, isto é, a felicidade daquele povo. Porque a felicidade não festeja todos os dias e tinha o direito de ser protegida quando se manifestasse. E assim foi. 

A festa já começava a findar. Todos rapidamente, começaram a comer o máximo que podiam, aproveitando aqueles doces até o último suspiro. As guloseimas eram guardadas no estômagos como joias. Naquele momento valiam mais que tesouros. Seus sabores um deleite relativamente curto mas o suficiente para criar uma dependência momentânea que deveria ser saciada o quanto antes.

A festa continuou até que no horário certo, as pessoas tiveram de guardar sua ansiedade para o outro dia. As línguas e os estômagos tiveram de se contentar. Então tudo se apagou e apenas as luzes da rua permitiam vislumbrar a cidade. Ansiosamente o outro dia foi aguardado para que logo começasse a festa, para então continuar aquela caça a tesouros edulcorados que, ao contrário de todos, não promovia um sensação de posse material, mas sim de posse de algo abstrato e momentâneo, sem se preocupar com o passado ou futuro, apenas com o presente, representado pelo singelo papilar sentido: o paladar.

A.M.O.R.
(Ana Moraes de Oliveira Rosa)

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