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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Titular do Brasil, Camargo fala sobre incentivo ao beisebol, carreira e afirma que o “máximo foi dado” no WBC

Vinícius Veiga

SEGUNDA BASE - Um dos jogadores mais veteranos da seleção brasileira de beisebol, o tatuiano Luis Camargo, aos 40 anos, tem muita história para contar no beisebol. O jogador, titular na qualificatória do World Baseball Classic (WBC), tem profundo conhecimento do esporte brasileiro e muitas ideias para fazer com que a modalidade que tanto amamos cresça em território nacional.

Em entrevista exclusiva ao Segunda Base, Camargo falou sobre o beisebol nacional, italiano, iluminação nos campos, participação da seleção no WBC e muito mais. Um bate-papo imperdível.

Como crescer o beisebol no Brasil

É notório o crescimento do beisebol nacional nos últimos anos, e um ponto de partida para perceber tal mudança está no patamar da seleção. A vaga no qualificatório do WBC não foi conseguida, mas em termos de status, a seleção nunca chegou para um torneio desse porte com tamanho respaldo dos adversários. Para Luis, essa é a parte de uma trilha que vem melhorando, e que depende diretamente de incentivo e trabalho entre os jovens.

“Incentivo envolve dinheiro, não só no Brasil, mas em todo lugar do mundo. Agora com essa coisa do COB (volta para o programa Olímpico), acredito que a gente vai conseguir ter uma disponibilidade maior de dinheiro e vamos esperar que isso seja voltado na hora certa.”

De acordo com Luis, um enfoque que o beisebol nacional precisa ter é em relação ao que é feito nos clubes e nas escolas.

“O que é complicado aqui no Brasil é a falta de ligação entre a escola e o clube. O trabalho legal que está sendo feito (na área de educação), são nas universidades. Os universitários têm a liga deles, mas o problema é que o beisebol universitário não gera atleta em alto nível. O beisebol universitário do Brasil está ligado a um hobby, é mais diversão. Existe a competição, óbvio, mas é mais um hobby. Você não consegue formar jogador depois da idade que eles já estão (a partir dos 18 anos). Se pudesse fazer algo parecido com o que acontece nas escolas, mas é complicado.”

Um dos problemas de não conseguir fazer essa ligação entre escola e clube é a falta de material adequado. Luis diz que o pouco material que há no Brasil é voltado para poucos lugares. “Supondo que as crianças conheçam o esporte no SESC, mas depois disso elas têm que procurar um clube. E aí, como funciona a partir disso? Ela vai procurar um time, mas as vezes esse está lotado de jogador e o cara não consegue jogar.

Luis Camargo com a camisa do Rimini (Reprodução)

Na visão de Luis, tudo precisa ser trabalhado em conjunto para otimiza o potencial dos jovens jogadores. “Precisa ser como é feito no Japão, em que se valoriza muito o beisebol colegial e, depois, tem toda ligação com o profissional.”

Para o beisebol profissional, Luis tem uma sugestão muito boa: “Eu bato na tecla que o melhor caminho para os brasileiros, tirando a exceção dos prospectos, seria uma ligação dos jogadores com as universidades colegiais fora do país. Assim, ele teria a condução de jogar lá fora e ser draftado. Mesmo se não profissionalizar, teria uma formação profissional.”

Iluminação dos campos é a chave

Atualmente, não há nenhum campo iluminado no Brasil e isso acaba criando alguns obstáculos que prejudicam o desenvolvimento do beisebol nacional.

“Eu sempre falo que é preciso ter campos iluminados. O Bom Retiro (estádio Mie Nishi), por exemplo, é uma tecla que eu bato sempre. É da cidade de São Paulo, não sei a politica que precisa ser usada para iluminar esse campo, mas seria fundamental. Iluminando esse campo, com certeza você vai ter jogos durante a semana e finais de campeonatos disputadas à noite. Com isso, seria mais fácil para as pessoas assistirem e acompanhar o beisebol.”

Estádio Mie Nishi, em São Paulo

A falta de iluminação no campo acaba criando calendários que não são os adequados com os horários dos jogadores. “Você fazer a final de uma Taça Brasil meio-dia de domingo é complicado. Domingo é um dia que o pessoal quer ficar com a família. Seria muito melhor se a final fosse no sábado à noite, e teria mais público. Além disso, como a maioria dos jogadores trabalham, domingo seria um dia para poder descansar.”

Para ele, a iluminação dos campos seria a solução mais rápida para ajudar a crescer o beisebol no Brasil. “Seria fundamental também para que as pessoas possam, de repente, trabalhar e treinar à noite. Se consequentemente tiver jogo durante a semana, elas também poderiam atuar. Aí poderia juntar com a ideal de uma liga semi-profissional entre empresas, o que o pessoal vem discutindo. Assim, você trabalharia de dia e à noite poderia ter jogo.”

Melhorar o beisebol no Rio de Janeiro

O beisebol do Rio de Janeiro vai ter o suporte da reforma do campo principal após as Olimpíadas, e isso pode ser o começo de coisas melhoras no âmbito carioca. Para Luis, a melhora do beisebol de lá também seria fundamental para outros motivos.

“Pelo beisebol ter voltado para o programa Olímpico, certamente é algo ótimo, uma repercussão muito grande. Com isso, o que também precisa ser feito é melhorar o beisebol no Rio de Janeiro, para assim o esporte ter uma visão maior perto do COB. Consequentemente, teríamos maior incentivo.”

Ótima geração e Eric Pardinho

Se o patamar da seleção cresceu consideravelmente nos últimos quatro anos, isso tem tudo para ter um salto ainda maior no próximo ciclo do WBC. A geração jovem de jogadores brasileiros conta com muitos nomes de destaque no beisebol internacional, como Luiz Gohara, Bo Takahashi e, mais recentemente, Eric Pardinho.

“Quatro anos passa muito rápido, temos que aproveitar (essa geração) e fazer algo muito legal. Tem uma geração muito boa de meninos entre 15 a 18 anos, mais os jogadores que passaram um pouco dessa idade. O Brasil está em uma ótima condição ter uma equipe muito forte para a próxima Olimpíada e WBC.”

Aos 15 anos e com bola rápida de 94 milhas por hora, Luis reconhece o talento de Eric Pardinho como especial e vem dando algumas dicas para o garoto.

“Pardinho é uma grande promessa. Agora ele tem que se cuidar, uma coisa que eu falei muito pra ele é estudar inglês. Ele vai assinar contrato, isso é coisa certa. O moleque tem cabeça boa, os pais ajudam bem. Isso dá tranquilidade para o menino. Com certeza ele vai se dar bem.”

Formação de catchers no Brasil e parceria com a MLB

No elenco da seleção brasileira para a qualificatória do WBC, havia um hiato grande de idade entre os dois principais catchers. Luis, titular, tem 40 anos, enquanto Luis Paz — que atua nas ligas menores do Los Angeles Dodgers —, tem apenas 20. Essa diferença de idade é pautada por algumas explicações.


“É uma coisa um pouco do passado. Todo jogador que aparece com braço forte todo mundo quer que (ele) seja arremessador. Mas acredito que está sendo feito um bom trabalho de formação de receptores. Com a vinda do Elite Camp pra cá, o pessoal passou a dar mais valor pra formação de catchers. Espero que os técnicos continuem com essa mentalidade. As vezes não adianta ter um arremessador bom sem ter um bom catcher pra pegar a bola dele. Tem que pegar jogador com braço que não tenha estatura tão alta, que seja fortinho, e tentar levar esses meninos para receptor. Consequentemente, teria maior desenvolvimento dos nossos arremessadores.”

De acordo com Luis, um catalisador para isso seria Yan Gomes. Primeiro jogador brasileiro a atuar na MLB, ele seria um espelho ideal para os garotos e poderia ajudar como instrutor.

“Tem também o Luis Paz que vai chegar, o Renan Lima e Artur Oliveira (catcher do Brasil no sul-americano). Com esses meninos se destacando, acredito que a molecada vai querer seguir o mesmo caminho. Tudo envolve espelho. É o incentivo da criança ver e querer ser igual aquele cara. Por isso, é importante, como Joe DiMaggio disse, que você precisa dar 100% no campo sempre, porque nunca sabe quem vai te assistir jogar. É uma mentalidade que o beisebolista brasileiro precisa ter.”

Luis também cita que um ponto muito positivo com o crescimento do beisebol nacional tem sido a parceria direta com a MLB, principalmente com a contribuição de Caleb Silva.

“Existe uma parceria da confederação com a MLB muito forte hoje. Caleb Silva vem realizando um trabalho muito importante no brasil e essa parceria com a MLB que está fazendo com que o nosso beisebol seja bem visto lá fora. Até porque o WBC está diretamente ligado com eles. Apesar de não conseguirmos a classificação, a MLB está envolvida com o Brasil. Já em outubro vai ter outra seletiva para o Elite Camp do ano que vem. Muito disso tem a ver com a ponte que o Caleb Silva faz com o beisebol brasileiro.”

Participação do Brasil no qualificatório

Foram duas derrotas por apenas uma corrida de diferença no qualificatório do Brasil. Partidas apertadas, mas que não foram como a seleção desejou. Para Luis, a o máximo foi dado na competição. “Não deu, mas voltamos para casa tranquilo e sabendo que o máximo foi dado.”

Para ele, um pouco de azar tomou conta da seleção nas duas derrotas. “O jogo infelizmente não foi como a gente imaginou, aconteceu tudo ao contrário, não conseguimos rebater na hora decisiva. O beisebol é assim, as vezes você dá três pancadas na luva do defensor. As vezes você dá uma rebatida com o taco quebrado e anota a corrida. Faltou essa rebatida com o taco quebrado para cair como bola válida para a gente ganhar os jogos.”

Durante a competição, o Brasil teve apenas três rebatidas com homens em posição de anotar corrida, o que certamente é o efeito de uma amostra pequena — em larga escala de jogos, essa média baixa não seria sustentável.

40 anos e planos para aposentadoria

Com uma carreira de vasta experiência internacional, Camargo representa representação há duas décadas. Já jogou no Japão, Brasil e há 10 anos está no beisebol italiano. Na posição de catcher, que é a mais desgastante entre os rebatedores, chega uma hora que o corpo pede a conta.

“Infelizmente cheguei aos 40 anos. Graças a deus consegui chegar com a boa forma, mas chegou a hora de dar um basta, ficar com a minha família. Não sei se a Itália vai me oferecer alguma coisa, mas o beisebol italiano mudou bastante, não é mais um lugar onde você pode tentar ganhar algum dinheiro. Tenho que pensar que o que vai ser melhor pra minha família e pra mim daqui pra frente.”

Luis Camargo com a seleção brasileira (Reprodução Facebook)

Para Luis, o grande problema de chegar nessa idade é o trabalho exigente para atuar em alto nível. “Se for para jogar de qualquer jeito ainda dá, mas não quero isso. A posição de catcher exige demais.”

O catcher disse que o objetivo era parar em março do ano que vem, após o WBC. Mas como o Brasil não conseguiu a classificação, ele tem a ideia de parar após o campeonato sul-americano. “Talvez encerrar a carreira com um título com a seleção.”

Beisebol italiano e crise financeira

Luis é um conhecido de longa data do beisebol italiano. Joga no país desde 2006, e também chegou a representar a camisa da seleção italiana na Copa do Mundo de 2007. Atuando no Rimini, time da primeira divisão da Itália, ele foi vice-campeão nacional neste ano.

“Beisebol italiano está em crescimento, mas o país está em crise. A liga já teve 12 times, agora tem sete. Aí e complicado, porque sempre gira em dinheiro, o salário está sendo menor. Tem muito jogador jogando na liga de baixo para trabalhar e jogar, ao invés de só jogar. O que é legal é que tem bastante equipe, desenvolvimento nas escolas, mas o que ajuda muito o incentivo ao esporte são os ótimos estádios. Todos os campos são gramados, há proteção e iluminação. Isso faz com que o cara que trabalha com isso ensine ou jogue. Isso faz com que o esporte cresça. Sempre esteja evoluindo.”

Trabalho da mídia ainda é fraco no Brasil

Na Itália, Luis disse que algo que ajuda a crescer o beisebol na Itália é a boa cobertura dos jornais locais. “É legal quando você pega o jornal e sempre sai o resultado dos jogos. Exemplo, a La Gazzetta dello Sport (maior da Itália), as vezes divulga os resultados. Nos regionais, sempre há essa cobertura, assim como estatísticas.”

Para ajudar a crescer o esporte no Brasil, Luis acredita que essa realidade precisa ser mudada para gerar mais incentivo e apoio. “As informações de todos os jogos precisa estar aberta para qualquer um.”

Ele acredita que isso ajudaria também a ida de jogadores para o beisebol estrangeiro. “É preciso ter um resumo do que o jogador faz, qual está sendo a média de rebatidas e tal. Isso também serve para ajudar os times de fora a contratar jogadores daqui. Se aquele jogador está rebatendo muito bem, o olheiro tem a ajuda do número para isso. Beisebol acaba sendo feito por número também. Por site ou impresso, a partir do momento que tenha esse tipo de informação, é outro meio para incentivar o esporte.”

No entanto, Luis afirma que há um trabalho que está sendo feito para mudar essa perspectiva. “Na Confederação, estão providenciando essa cobertura maior dos jogos e resultados, o que seria muito legal para o nosso beisebol.”

***

Com vasta experiência internacional, Luis é a personalidade certa que o beisebol brasileiro precisa ter para si. Com várias ideias e conhecimento de como desenvolver o esporte, poderia se encaixar muito bem em algum programa de auxílio e crescimento do beisebol no Brasil.

É de pessoas como Luis que o nosso país precisa para dar o próximo passo.

Sobre Vinícius Veiga

Graduando em jornalismo, fã das grandes ligas e especialista em beisebol e basquete, administro o Spinball Net - site sobre esportes americanos.

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