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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Livro aborda o trabalho escravo na Fábrica de Ferro Ipanema, em Iperó

Obra traz revelações sobre uma modalidade pouco explorada pela historiografia brasileira: os homens que pertenciam ao Estado

Felipe Shikama, no Cruzeiro do Sul, com edição do DT

Fábrica de Ferro São João de Ipanema (1820), pintura de Jean-Baptiste Debret. Foto: Reprodução / J. F. de Almeida Prado (1973)

23/06/2019 | A força de trabalho escravo usada na construção e no funcionamento da Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em Iperó, é analisada no livro “Escravos da nação – o público e o privado na escravidão brasileira, 1760-1876” da pesquisadora Ilana Peliciari Rocha, que acaba de ser lançado pela Editora da USP (Edusp).

Com 344 páginas, a obra traz revelações sobre uma modalidade de escravidão pouco explorada pela historiografia brasileira: os escravos que pertenciam ao Estado, que se distinguem como escravos públicos e que durante o Brasil colonial eram chamados de “escravos do Real Fisco” ou “escravos do Fisco” e no Império ficaram conhecidos como “escravos nacionais” ou “escravos da nação”.

O livro é fruto da tese de doutorado em História Econômica, pela USP, defendida pela autora em 2012. A escravidão, aliás, já havia sido objeto de estudos de Ilana na graduação em História, pela Unesp, e no programa de mestrado em História Econômica, também pela USP. “A ideia de trabalhar os ‘escravos da nação’ surgiu, inicialmente, de um bate-papo com meu orientador [professor Dario Horacio Gutierrez Gallardo] e materializou-se com o contato com documentos no Arquivo do Estado de São Paulo”, detalha. A autora examinou fontes oficiais, como os relatórios governamentais dos ministérios, documentos manuscritos como cartas oficiais e requerimentos, legislação, recortes de jornais e outras publicações da época.

Vista da Fazenda de Santa Cruz, propriedade agrícola de usufruto da Coroa. A pintura é do artista Jean-Baptiste Debret. Foto: Voyage Pittoresque et Historique au Brésil (1839)

Conforme ela, esse contingente de escravos públicos foi incorporado ao patrimônio imperial depois do confisco dos bens dos jesuítas pela Coroa portuguesa, em 1760, e continuaram presentes por mais de um século, até a implantação gradual da Lei do Ventre Livre, de 1871.

Além da Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, uma propriedade agrícola de usufruto da Coroa como local de passeio, o livro analisa a Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em Iperó, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), ambos redutos de escravaria pública que, segundo a pesquisadora, permitem uma visão panorâmica das transformações ocorridas no âmbito do escravismo brasileiro.
Tratamento diferenciado

Quando se fala em escravidão do Brasil, é senso comum associar os escravizados à ideia de propriedade privada, mas pouco ou quase nada é dito sobre a condição de escravos públicos ou estatais, que é o diferencial do livro da pesquisadora de Franca, que atualmente leciona na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, (UFTM). “Uma dificuldade é a dispersão da documentação, pois esses escravizados estavam distribuídos em todo o território do Brasil Colonial e Imperial”, afirma.

Obra é fruto de tese de doutorado. Crédito da foto: Reprodução

E quais as diferenças fundamentais entre os escravos públicos e os escravos privados? Segundo a autora, para pensar nessa caracterização é preciso retornar ao tratamento que os jesuítas deram a esses escravizados. “Esses padres estimularam, por exemplo, que os escravizados formassem famílias”, comenta.

Apesar do tratamento diferenciado, Ilana reitera que a condição escrava era comum a todos os escravizados, ou seja, a condição de coisa e a submissão pela força faziam-se presentes. “As escolas e hospitais estavam presentes nos estabelecimentos e, em alguns momentos, receberam os ‘escravos da nação’. Não podemos dizer que eles recebiam um tratamento melhor, mas diferenciado”, acrescenta.

A pesquisadora detalha que no caso da Fábrica de Ipanema, desde o início do empreendimento foi necessário o trabalho de escravos especializados. “Foram encaminhados cem escravos para trabalharem como serventes da obra, doze escravos pedreiros, dez escravos carpinteiros e seis ferreiros”, afirma.

A fábrica, segundo sua pesquisa, estava dividida em seis classes, sendo que alguns escravizados chegam a aparecer na segunda classe. “Aparentemente, caracterizavam-se por um conhecimento técnico mais apurado, responsáveis por passarem esse conhecimento a outros, os mestres. Assim, estavam inseridos nas diversas atividades da Fábrica de ferro. Em quase todas as etapas de produção estavam presentes, exceto nas funções de controle central (primeira classe)”.

O número de escravizados oscilou de 100 a 167 para o período de 1837 a 1862. Posteriormente, ocorreu a redução, gradativamente, para 52 escravizados em 1870.

Essa redução, revela Ilana, ocorreu em função de mortes e transferências de escravos para outros estabelecimentos. “Além disso, as alforrias estavam presentes, principalmente as dos homens, possivelmente aqueles especializados que ganhavam uma remuneração”. (Felipe Shikama)
Serviço

“Escravos da nação – 0 público e o privado na escravidão brasileira, 1760-1876” custa R$ 52 e pode ser adquirido pelo site edusp.com.br.

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