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Tatuí, 


sábado, 20 de janeiro de 2018

crônica / Ana Moraes

Egocidente

As sombras se esvaem nos céus anuviados e o Sol resplandece findando a madrugada. Acordam os trabalhadores nas primeiras horas do dia para trocar seu sagrado suor pelo pão, muitas vezes mísero, de cada dia.

Dentre estes trabalhadores que enfrentam os perigos de suas labutas, está o motorista de ônibus, um homem que carrega o fardo humano em suas costas, levando até o ofício os laboriosos seres madrugados.

Doma as rédeas daquele monstro de seis rodas, por ruas estreitas e avenidas longas. Sobe e desce rampas amedrontadores ecoando o seu rugido maquinal. Mexe nas entranhas engrenadas desta criatura dando-lhe vida e evitando sua morte. Conduz seu comprido e quadrático corpo por sinuosas curvas, como se a sua rigidez se fizesse argila amolecida por água e se desdobrasse como a cauda de uma baleia.

O motorista, como todos, é um ser humano provido de razão e de sentimento construído pelos erros e pelos acertos. E em um dia pode sair de sua humilde casa aflito, com o coração rachado, brigado com algum familiar ou vizinho, insatisfeito com algo ... Tudo isso escondido taciturnamente em seu interior invisível aos olhos.

Neste dia, ainda, é submetido ao enfrentamento de todas aquelas sinalizações insensíveis e frias, requintes urbanos para a manutenção da ordem; de todos aqueles apressados veículos de todos os tamanhos: mínimos, pequenos, médios, grandes, incomensuráveis ... tendo de enfrentá-los sem encostar neles, sem se quer lhe desferir um golpe mínimo, como derrubar Golias sem usar pedra, enfrentá-los com agilidade, perspicácia e controle de seus ímpetos.

E em uma curva, por um instante, se distrai, suas noções se equivocam por um instante, e inocentemente acaba se chocando contra um veículo. Todos os passageiros iniciam seus resmungos e comentários negativos sobre o ocorrido. Começa uma discussão como em um tribunal para decidir quem é o réu por júri popular, mas com bem mais de sete pessoas. Rogos não faltam para o céu.

O motorista do carro sai esbaforido e vociferando com ódio causado pelo prejuízo de seu bem. Mas não um bem qualquer. Um bem que exala luxo por onde passa. Os mínimos detalhes naquela máquina, em cada canto daquele polimorfo metálico corpo semivivo. O conforto exaltado em seu interior, os assentos e sua maciez, o ar condicionado sob as suas condições e necessidades, servindo-lhe como um servo, arrebatando-lhe as sensações sôfregas térmicas.

O motorista do ônibus, o pobre motorista que rege aquela grande criatura, se sente acuado e sem saída. Sabe de sua culpa. A culpa gerada pela sua distração. Distração gerada pelos seus problemas pessoais, que sob a ótica dos outros não contam para nada, apenas lhe subtraem as habilidades.

O motorista do carro decide ir até a empresa, confrontar os responsáveis por aquele indivíduo, que cometera o delito, consequência de algo invisível, sobrenatural.

Logo, após todo um transtorno na via, chega outro ônibus e todos os passageiros impacientes e impassíveis com relação as emoções trancafiadas naquele corpo de réu adentram-no, sequiosos para alcançarem seus destinos, agora atrasados por um erro, um erro de um homem que não sabem o nome e nem querem saber. Apenas o conhecem pela sua função e o chamam pela sua função.

A queixa e seu erro chegam aos inflamados ouvidos de seus superiores. O motorista do carro, insensível, se preocupa apenas com aquele amasso feito em seu trono móvel, ostentando suas posses materiais, lhe figurando como um indivíduo bem apessoado e bem sucedido.

Os superiores em seus pensamentos econômicos resolvem se desfazer daquele pecador. Não lhe dão nenhuma chance de se arrepender. O seu pecado é capital, no sentido econômico. O preço daquele concerto seria o “olho da cara”, até os dois se possível.

Naquele pequeno livro azul estampando símbolos republicanos escrevem, no único livro que todo ser honesto e civilizado escreve por naturalidade, quatro palavras que podem tornar este pequeno livreto a maior desgraça e fracasso literário de todo escritor trabalhador, o autógrafo maquiavélico: “demitido por justa causa”. Ou será por injusta causa?

Agora, essas quatro palavras arrebatam o pão miserável de cada dia desse pobre motorista de ônibus, pior: das bocas que ele sustenta. 

Tudo isso por causa de um indivíduo que decidiu fazer de sua vida uma vitrine de luxo, mostrando hipocritamente sua falsa felicidade material. Talvez nem seja culpa dele, e sim de algo maior do que ele, que nos alimenta com venenos sociais. Exacerbando uma das coisas mais horríveis que habita o nosso ser: o egocentrismo. Toda uma desgraça por causa de um acidente, ou melhor, um egocidente.

A.M.O.R.
(Ana Moraes de Oliveira Rosa)

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