Boletim de informações COVID-19 n° 29 Tatuí, 29 de março de 2020 - 16h

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Fonte: Prefeitura de Tatuí

domingo, 12 de dezembro de 2010

artigo>>> Sua majestade, o cururu

por HENRIQUE AUTRAN DOURADO
Do jornal O Progresso de Tatuí. edição 5476, de 2010.12.05

O cururu, quem diria, voou com as próprias asas. Em 2009, no I Torneio Estadual Cururu Vivo, pairava um receio, estávamos apreensivos. Haveria público nas classificatórias? E na final? Para isso, chamamos um grande nome, com um pé na raiz popular e outro na modernidade, além de passagens em novelas: Almir Sater foi um sucesso. Com ele, garantimos a lotação da Concha Acústica da praça Spártaco Rossi, em Tatuí. A tietagem era explícita, e não se limitava às mulheres mais atiradas, havia aquela certa mística geral de poder ver na frente quem antes só dava para espiar por trás da TV, como fosse um aquário.

Em 2010, mais tempo de preparo, o grande desafio: teria o cururu asas para voo solo? A disseminação de eventos do gênero em outras cidades, caminho aberto por Tatuí, a saída da toca dos cururueiros “enrustidos” (existem os que têm vergonha da cultura caipira!), o apelo do Conservatório aos jovens, seria suficiente? Foi. Na primeira eliminatória, praça lotada, Tatuí, com Zé Pinto/Zacarias e Josué, lavou a alma sobre Agudos, vencedora do ano anterior. São Manuel, na outra chave, trouxe Celso Martins/Maçarico e Lamparina - que fogueira! -, chama apagada por Votorantim. No show de encerramento do primeiro dia, a música raiz-raiz do Índio Cachoeira e uma das mais bonitas manifestações populares, a catira (que já passa a fazer parte do torneio anual), encantou com a percussão de seus sapateados.

Na segunda noite, nova expectativa, nova surpresa. Tatuí não disputava, e o show final era com a Orquestra de Violas de Votorantim. Nada de artista da TV, mais uma vez. Mas o povo da cidade, somado aos torcedores dos outros municípios, lotou de novo o espaço. Sinal de que o que ali se apreciava era a arte dos mestres cururueiros, e não apenas a cidade de cada um, como fossem times de futebol. Todos torceram para suas duplas favoritas (ou de seu interesse para a final): e Botucatu, com Dito Moraes/Dito Principal e Roquinho, venceu Cesário, com três “Zés”: Vitanca/Neto e Mulato. Piracicaba, com Moacir Siqueira/João Mazzera e Alessandro, jogou na lona Pardinho, com Zarias/Jacinto e Keller.

A grande surpresa ficou para a final. Tatuí, com Zé Pinto/Zacarias e Josué, travou duelo com Piracicaba, gente forte no estilo, povo escolado na arte. Zacarias estava com a voz mais projetada em relação à primeira eliminatória, parece que a tonalidade havia subido. Zé Pinto, como sempre – este ano com a voz menos rouca -, “fé cega, faca amolada”, não poupava os visitantes piracicabanos. Afinal, era preciso demarcar o campo e ganhar espaço desde o início. Que a dupla de Tatuí esteve mais solta, improvisando mais do que a de Piracicaba, é inegável. Que houve falha de nossos visitantes de Pira na carreira do Divino, também. Mas a arte melódica sofisticada, as rimas internas encadeadas de Piracicaba são charme puro.

Uma ou outra língua maldosa – fato normal em competições de qualquer coisa – achou que Piracicaba estava “ensaiada”. Penso que, como um professor, um orador, certas frases (no caso, versos e rimas) de tanto serem repetidas ficam meio “prontas” (desde que sem exageros de decoreba). Foi por muito pouco que a terra do Conservatório de Piracicaba pontuou para levar o belo troféu cunhado em madeira pelo nosso Jaime Pinheiro.

O show final foi um golpe de mestre. Não precisava mais chamar estrela da TV (podem até cantar em outra ocasião), o cururu já voava sozinho, como passarinho que salta do galho da primeira vez. Praça lotada, gente dançando, alguns às lágrimas. Um filho de espanhol com muleta sobe elegante a rampa de acesso, terno bordado na lapela como o Sinatra, o garbo de um estadista. Era ele, sim, Tinoco, recorde (conforme a ABPD) de vendas, algo como 150 milhões de discos, à frente de Roberto Carlos, com meros 50 milhões. Mereceria um “Grammy”.

Tem gente que se finge de fina, acha tudo isso brega (“só digo ‘enchanté’, ‘muito merci’, ‘oraite’”). Mas ser caipira é “in”, é “show”, é “fashion”, moçada. É um estado de espírito, o laço umbilical com a origem do brasileiro, não muito diferente em Goiás, Minas ou São Paulo. Brega é fazer a fortuna de quem a TV vende, copiar o que a moda dita. A moda do cururu é outra, é a de viola, é bandeira que já se levanta, erguida no céu imenso, nela escrito que a tradição nunca há de perecer. Obrigado, Zé Pinto, Zacarias e Josué! Bravo!

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