30/04/2026 | O Concurso Estudantil de Dramaturgia do Conservatório de Tatuí atravessa mais uma edição ampliando seu campo de ação e escuta. Os textos recebidos configuram um panorama em movimento da escrita teatral entre estudantes, marcado pela diversidade de procedimentos, temas e modos de construção da cena.
Nesta edição, chegaram 45 inscrições, vindas de diferentes regiões do estado de São Paulo. Esse conjunto revela uma circulação ativa de práticas e um interesse consistente pela dramaturgia como espaço de pesquisa.
Os trabalhos percorrem múltiplas direções: investigações formais, escritas atravessadas por experiências pessoais, jogos de linguagem, experimentações com estrutura e voz. Há um interesse recorrente em deslocar formas conhecidas e explorar outras possibilidades de organização do texto teatral.
O processo de seleção se deu a partir da leitura atenta desse conjunto, considerando a consistência das propostas, a singularidade das escritas, a potência de desdobramento de cada texto e a diversidade geográfica e social. As cinco dramaturgias selecionadas serão contempladas com o prêmio de R$ 3.000,00, conforme regulamento. Além disso, todos os textos, inclusos os que receberam menção honrosa, serão publicados na próxima edição da Buli – Revista de Artes Cênicas do Conservatório de Tatuí – Caderno de Dramaturgia. A seguir, apresentamos os textos selecionados desta edição:
PREMIADAS
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| Gabriele Clemente (Sorocaba – SP) |
Acalenta lotação – Gabriele Clemente (Sorocaba – SP)
Acalenta Lotação, projeto embrionário de dramaturgia, como a própria autora o define, destaca-se pela proposta de construir uma ficção a partir de fragmentos de diálogos reais, colhidos em escutas no transporte público — em filas, pontos e no interior dos ônibus. A regra autoimposta de desenvolver a história e as personagens exclusivamente a partir desses encontros reais e efêmeros delineia uma dramaturgia atravessada pela fragmentação, que não é apenas procedimento, mas estrutura. Ao transformar essas escutas em matéria ficcional, o projeto aposta em uma escrita viva e pulsante, capaz de tensionar o cotidiano e produzir fissuras por onde emerge a dimensão coletiva da experiência: mesmo em uma sociedade marcada pelo individualismo, permanecemos inevitavelmente conectados e implicados uns nos outros.
(Mimi Tortorella)
Gabriela Clemente é atriz, professora de teatro e estudante de Licenciatura em Artes Cênicas, formada como técnica em Teatro pelo Senac Sorocaba. Atua em diversas montagens com coletivos da cidade e desenvolve trabalhos como dramaturga e pesquisadora, investigando a memória como campo de criação artística.
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| Triz Cristina (São Paulo – SP) |
Borboletas – Triz Cristina (São Paulo – SP)
O texto Borboletas apresenta possui uma escrita bem construída, que sustenta o desenvolvimento da narrativa com fluidez. Aborda a bulimia, um tema delicado e de grande relevância, trazendo reflexões sensíveis, necessárias e tratadas com profundidade. A dramaturgia demonstra um cuidado na construção de imagens e atmosferas significativas.
(Paula Fernanda)
Triz Cristina é uma atriz, performer e dramaturga amarela. Artista plural das artes da cena, recém-formada pela Universidade de São Paulo. Atualmente é performer e dramaturga da peça BORBOLETAS e dramaturgista da ópera ‘Dido e Enéas’ (2026). Em 2025 estagiou como dramaturgista institucional do Theatro Municipal de São Paulo. Integrou também o elenco do espetáculo ‘A Gente Quer’, da Ktha Cie.
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| Vítor Hugo Santana (Araçoiaba da Serra – SP) |
Critural – Vítor Hugo Santana (Araçoiaba da Serra – SP)
A escrita se organiza como um mergulho progressivo na matéria do corpo, acompanhando o esvaziamento da linguagem e a emergência de uma fisicalidade cada vez mais instintiva. Em vez de narrar, o texto sustenta um estado, conduzindo o leitor por uma experiência de transformação em que o gesto precede o sentido. Há um rigor na construção das imagens e no ritmo das ações, que faz com que a cena se desdobre quase como uma partitura sensorial. Nesse percurso, a noção de identidade vai se desfazendo, revelando um corpo atravessado por forças anteriores à cultura e abrindo espaço para uma inquietação que permanece além do fim.
(Tadeu Renato)
Vitor Hugo Santana é ator e pesquisador em formação, estudante do curso Técnico em Teatro pelo Senac Sorocaba e graduando em Licenciatura em História pela Universidade de Sorocaba. Desenvolve pesquisas que articulam interpretação, corpo e memória. Participou de projetos de criação cênica com foco em investigação histórica e construção de personagem.
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| Deborah Correa, Isabelli Chiaparini e Natália Mendes (Tatuí – SP) |
Enredo cômico de uma palhaça-mulher-coisa-atômica – Deborah Correa, Isabelli Chiaparini e Natália Mendes (Tatuí – SP).
O projeto Enredo cômico de uma palhaça-mulher-coisa-atômica, de Deborah Correa e coletivo Alfarrábios Atômicas traz uma proposta de pesquisa e escrita bastante potente: olhar/analisar/questionar, por meio da palhaçaria, questões que atravessam/invadem/tentam moldar a vida de uma mulher neste mundo pautado pelo machismo patriarcal. Além da sinopse e da intenção de pesquisa, o grupo apresenta obras de referência e um esboço da primeira cena. A dramaturgia, segundo o projeto, deve ser composta por três cenas, de nomes bastante significativos: Nascimento, Quebra e Identidade. Com esta criação, com a cara pintada e fazendo graça, essas jovens artistas dizem que esperam ser mais escutadas do que são como mulheres. De nossa parte, nós também esperamos que vocês sempre possam ser ouvidas; e, sobretudo, que continuem falando, na arte e na vida.
(Tabata Makovski)
Alfarrábios Atômicas é um coletivo teatral, criado pelas estudantes de Artes Cênicas do Conservatório de Tatuí, Deborah Correia, Natália Mendes e Isabelli Chiaparini, a partir do desejo de pesquisar e utilizar o teatro, a palhaçaria e a música, para abordar diferentes temas, começando pelo feminino e as questões que o envolvem.
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| Azre Maria Tarântula (São Paulo – SP) |
Mata-matá – Azre Maria Tarântula (São Paulo – SP)
A produção travesti nas artes, y sobretudo na dramaturgia, não ocupa apenas um espaço: ela interrompe uma norma, inventa uma nova língua, afia a palavra como lâmina y faz do corpo escrito um território de insurgência. Em Mata-Matá, de Azre Maria Tarântula, essa potência se manifesta com força lírica y política: a palavra é ao mesmo tempo sangue, prece, faca y terreiro. Tarântula não pede permissão para existir — ela denuncia o colapso da brancura, subverte a santidade, recusa o paraíso, confronta um brasil de “b” minúsculo, y faz altar nas esquinas. A escolha desse texto nesse concurso não é apenas um reconhecimento da qualidade estética do texto: é também ouvir, enfim, quem sempre esteve à margem dizendo, com a voz embargada mas firme, que “a tarântula não está morta”. Que a dramaturgia brasileira, a partir de agora, saiba conviver com esse veneno sagrado.
(Ymoirá Micall)
Azre Maria Tarântula é indígena em retoma, travesti, estudante de Sonoplastia e formada em Técnicas de Palco, ambas pela SP Escola Superior de Teatro. Também é formada em Cenotécnica pelo Theatro Municipal de São Paulo. Integra os coletivos CTI – Teatro-Baile, Brincar de Shiva, a banda Reticências e a House of Mamba Negra. Performer, cantora, atriz e técnica de teatro,. Agora também na dramaturgia, desenvolve seu solo Mata-Matá.
MENÇÕES HONROSAS





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