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Tatuí, 


domingo, 14 de abril de 2019

artigo | Eduardo Guedes Caetano


Há apenas 133 anos Tatuí tinha METADE da população da Capital


No dia 13 de abril de 1831, tocou-se pela primeira vez o Hino Nacional. No Rio de Janeiro.

Mas no meio de enorme crise:

"O assassinato do jornalista oposicionista Libero Badaró, a mando de policiais ligados ao governo, aumentou a pressão da opinião pública contra D. Pedro I.

Diversos incidentes eclodiram em várias províncias, e o mais sério deles ficou conhecido como a Noite das Garrafadas, em 12 de março de 1831, quando portugueses e brasileiros lutaram nas ruas do Rio de Janeiro.

Sem apoio político, D. Pedro I foi  aconselhado a renunciar e abdicar do trono em 7 de abril de 1831, em favor de seu filho Pedro, que tinha apenas 5 anos de idade. Por causa da menoridade do príncipe, foi formada uma regência tríplice provisória para administrar o país."

O que não está escrito aí, e que é melhor entendido lendo-se a História de Portugal, é que para nosso D.Pedro I não bastava ser Imperador do Brasil, queria TAMBÉM a coroa de Portugal.

Foi para Portugal guerrear (anos muito sangrentos) contra o irmão D. Miguel e a mãe.

A mãe queria que D. Miguel fosse o rei, pois ele conhecia bem Portugal, e Pedro já era imperador do Brasil, tendo proclamado a independência (sinal de traição a Portugal).

João Guedes Pinto de Mello, pai de Martinho e avô do industrial pioneiro paulista Manoel Guedes, era um nobre da região do Porto, da mesma cidade que Carmen Miranda, tenaz suportador de D. Miguel.

Perdeu a guerra, foi preso.

A esposa veio então, com os quatro filhos homens, para Campinas por volta de 1840, quando esta era maior que a Capital.

Em 1844, quando do desmembramento de Itapetininga, a recém-fundada Tatuhy  tinha apenas 3.200 habitantes (maior parte rural).

Em 1840, Tatuí tinha apenas quatorze quarteirões, três ruas e seis travessas (atuais ruas José Bonifácio,  XI de Agosto, 7 de Maio, Capitão Lisboa, Prudente de Morais), além do histórico "Largo Central", depois Largo da Beneficência, e atual "Concha Acústica".

O caçula, Martinho Guedes, cresceu e foi vender seus produtos importados para os lados de Tatuí, onde conheceu uma quatrocentona jovem viúva, dona da fazenda Pederneiras, onde hoje é a pista de testes da FORD.

"Tatuhy", hoje a "Cidade da Música" por causa do seu reconhecido internacionalmente Conservatório de Música, tem sua origem ligada ao berço da Siderurgia Nacional (Fundição Ipanema 1811-1926, que dá nome ao famoso bairro carioca). Lá em Iperó na década de 1810 técnicos suecos e alemães, trazidos por D. João VI, disseminaram o gosto pela música aos trabalhadores, cujas famílias migraram para onde mais tarde fundou-se Tatuí.

Martinho e Maria Alves de Almeida Lima casaram-se em 1848, importavam produtos europeus e os comercializavam por Tatuí e região.

Começou a importar de Savannah, Georgia, sementes de algodão herbáceo (diferente do algodão arbóreo, cultura de subsistência no Brasil), e desenvolveu o plantio racional do algodão, técnica agronômica.

Com a revolução industrial fortemente focada na indústria têxtil, a Inglaterra dependia do algodão como hoje dependemos do petróleo. Ou a Google depende dos computadores e da energia elétrica, hoje.

Com a guerra Civil Americana, de repente a Inglaterra se viu sem matéria-prima. As máquinas inglesas dependiam do algodão americano (algodão do Egito e da Índia serviam para alguns teares dos franceses e alemães, mas não para os ingleses).

Com uma visão incrível, Martinho, a exemplo do que fazem hoje as Cooperativas agrícolas, importava as sementes de algodão herbáceo, as distribuía entre agricultores locais, dava assistência técnica, e depois comprava o algodão, beneficiava, e exportava.

Com isso, conseguia exportar para a Inglaterra com uma qualidade quase tão boa quanto a dos americanos, antes da guerra.

Com a explosão de preços, o algodão herbáceo ficou conhecido como Ouro Branco.

Martinho ganhou rios de dinheiro entre 1863 e 1870-1871, quando os americanos voltaram a produzir grandes quantidades de algodão, e os preços internacionais caíram muito.

Outras regiões do Brasil, detentores de menor técnica agrícola, não mais conseguiam ser competitivos, e tiveram grande crise.

O visionário Martinho pretendia "verticalizar", construir uma indústria de fiação e tecelagem para absorver a produção  e criar valor adicionado, mas morreu em 1872.

O filho, Manoel Guedes, talvez ainda mais visionário, conseguiu realizar o sonho do pai, com a ajuda da mãe, que faleceu em 1880, um ano antes da fábrica começar a funcionar.

A primeira tecelagem de Sorocaba (N. Sra. da Ponte) era menor, e foi inaugurada um ano após a São Martinho. A maior de Sorocaba, hoje shopping Cianê, é "filhote" da São Martinho, onde seu fundador trabalhou 16 anos como diretor industrial, engenheiro inglês John Kenworth, que depois foi sócio do famoso Scarpa.

Reconhecido por historiadores como um dos doze "Próceres das Indústrias e Finanças de São Paulo", junto com Matarazzo e Crespi, Manoel Guedes também promoveu a Cultura. Construiu em 1871 um dos primeiros teatros do estado (o São João, na atual Praça Manoel Guedes), e 25 anos depois um dos primeiros cine-teatros do estado (S. Martinho, na praça da Matriz, hoje Banco Itaú), além do monumental "Theatrão", nunca concluído pois Manoel faleceu.

Quanto à Saúde, doou terrenos e ajudou a construir a precursora da Santa Casa (Beneficência), mantinha farmácia gratuita para seus empregados e trouxe, como médico da fábrica, o depois famosíssimo dr. Emílio Ribas, e o instalou numa casa, ainda bonita e conservada, onde hoje está loja de bolsas, a um quarteirão da Matriz.

Em 1885 no estado todo havia apenas nove tecelagens, a São Martinho era provavelmente a maior. Em 1910, foi também a primeira a ser movida por energia elétrica e, em seguida, Tatuí foi um dos primeiros municípios paulistas a ter essa comodidade.

No Itaim em São Paulo, há uma rua em  homenagem de Manoel Guedes.

Foi uma das fábricas pioneiras no Brasil.

O palacete virou literalmente cartão postal ("Souvenir - World Exposition - Residence of Mr.Manoel Guedes - Tatuhy - São Paulo") nas importantes Feiras Mundiais da virada do século.

O complexo fabril, o palacete e a vila operária estão instalados a apenas quatro quarteirões da praça da Matriz.

Embora tombado e único no estado de São Paulo, esse complexo histórico está abandonado e infelizmente se decompondo por causa de disputas judiciais infindáveis por dívidas do proprietário desde os anos 40, família Chammas, outrora poderoso grupo Moinho São Jorge.

A prefeitura local, o INSS, o Ministério Público, o governo estadual, os vereadores e o juiz trabalhista deveriam se unir para não deixar se perder este tesouro para o turismo, moderna indústria na nova economia sustentável.

Em 1886, por causa da produção do algodão herbáceo/Ouro Branco em Tatuí, e por causa da construção e operação da fábrica, a cidade tornou-se a 5ª mais populosa do estado de SP, segundo o Censo de 1886.

Tatuí (24.936 habitantes) tinha, então, metade da população da Capital (47.697 habitantes), que tinha há pouco finalmente superado Campinas.

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