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Tatuí, 


sábado, 5 de maio de 2018

crônica / Ana Moraes


A cédula rasgada

Quantos humanos fazem parte da mobília que enfeita essa grande casa chamada Terra? Estes desempenham papéis na sociedade como puros adornos e enfeites sem valor. As pessoas andam e perambulam por uma cidade sem ao menos olhar na cara dos demais transeuntes, seja por indiferença ou por medo.

Os outros estão por aí por estarem. Simplesmente por preencherem os locais, para não ficarem tão “vazio e insípido como já o é”. Pessoas desvalorizadas que entrecruzam os caminhos alheios. E o único valor agregado a essas, em uma primeira impressão, está estampado em suas faces, em seus contornos corporais ou nos quês os cobrem a nudez.

A vida alheia parece sem valor. Uma desvalorização que as casas de câmbio nem ousam cotar por não terem zeros o suficiente para desvalorizá-la. Seres carregados de problemas, defeitos, trejeitos, dores e misérias, que desvalorizam cada vez mais cada ser humano por aí.

Seres caindo aos pedaços por suas condições físicas, as mais evidentes aos sentidos, estabelecidas pelo infortúnio, e por suas condições emocionais, as mais veladas e intrincadas, que se omitem muito bem em frente aos cincos sentidos banais.

Se encontra-se alguém caído, rasgado por dentro e por fora, embutido em um monótono farrapo, em uma cor epidérmica não muito “agradável”, não se sente impulso natural para ajudá-lo e entrega todo aquele fardo de infortúnios para outrem tentar solucionar ou mesmo para as deidades.

Mas se encontra uma cédula rasgada sobre alguma rígida pedra que calça os passos pelas ruas, então não se pensa duas, três, quatro ou mil vezes para acorrer aquela triste cédula, ferida, abandonada, sem ninguém para acudir-lhe, sem ninguém para reparar-lhe as mazelas que o azar lhe impôs. E num drama de regozijo, pega-lhe avidamente e independente de sua vestimenta, cor, face ou forma corporal, que é tão monótona e euclidiana, e reconforta-a nas suaves e macias algibeiras, como fazendo uma boa ação. 

E independente do ferimento que ela possuir, sempre haverá um tratamento delicado e milimétrico. Uma convalescença com lhaneza no trato, ao colar e manipular a fita adesiva para sarar as feridas que mal sangram e se um dia sangrar, sangrará corrupção e negligência que corre nas veias daquela face inflexível que estampa um dos lados da cédula.

Interessante pensar que a cédula rasgada e vitimada, assim como o ser caído e desbotado pela vida, poderiam ter a mesma origem para sua mazela: a indiferença. Por um momento de descuidado e falta de preocupação, ambos caíram sem possibilidade de se soerguerem sozinhos. Mas pelo fato de a cédula possuir um número timbrado em seu corpo que lhe impõe um valor “útil” na sociedade, muitas mãos aparecerão para lhe levantar, enquanto que o ser caído sempre poderá rogar aos sete ventos que os únicos a ajudarem serão os objetos caídos na calçada, no seu nível, já mortos.

Afinal, quanto vale uma nota rasgada? Com fita adesiva, o mesmo valor da face. Então, quanto vale um ser humano caído e abandonado? Nada, porque aparentemente não há fita adesiva que lhe conserte. 

Espera-se que um dia inventem uma fita adesiva especialmente para seres humanos, se já não a fizeram e todos em sua cegueira não conseguem perceber. Assim as pessoas poderão ajudar mais aqueles caídos e abandonados, devolvendo-lhes o seu real valor com a mesma ânsia que o fazem com as cédulas rasgadas.

A.M.O.R.
(Ana Moraes de Oliveira Rosa)

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