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segunda-feira, 1 de maio de 2017

crônica / Ana Moraes

DESABAFO DE UM CIGARRO

“Penso logo existo” ou “Cogito ergo sum”, como diria René Descartes, no meu caso o lema é “mato, logo existo”. Como eu posso existir? Sou degradador de vidas, de famílias, de sociedades. 

O homem me fez para se matar aos poucos, para cometer um suicídio gradativo, lento e quente, quente por dentro. Ademais, nem pena de mim tem. Me queima sem se preocupar comigo e com os outros. No fim me torno um exacerbador do egocentrismo. 

O que ele pensa quando me consome e consome meus irmãos? Não sem nem se pensa, só do fato de se alto flagelar já é um ato sem pensar. Basta a realidade nua e crua que nos atormenta e nos tortura. Assaltos, matanças, estupros, explosões e entre outras coisas, porque mal neste mundo não falta. 

E além de me consumir, injeta-me as piores substâncias, de forma a me fazer parecer a caixa de Pandora em miniatura e de fácil difusão. Carrego em minha essência a maldade e a destruição. E por um ato de “precaução” ou “prudência”, seja qual for a palavra não se encaixa com o ideal pregado, me colocam um “filtro”. Se não quisessem que eu fizesse tanto mal assim, então não me colocassem tantas impurezas, imperfeições e poluições. 

Que sina de um cigarro! Ser aceso para praticar homicídio. Queria ser como a gasolina, que polui mas move motores, move carros, move ônibus, move o mundo. Queria ser um pedaço de jornal que informa e auxilia o homem na manutenção de seu conhecimento temporário e permanente. Queria ser um pedaço de lenha que aquece e acalenta os homens! 

Estimulo o suicídio nos outros, mas não posso me suicidar para evitar os suicídios alheios. Esta é a minha função. Corromper pelo vício a alma e o corpo originalmente são. Alimentar a ingratidão do homem para com a sua integridade física e moral. 

Enquanto estou junto com meus irmãos sou bem guardado, protegido por uma caixa, ou seja, tenho utilidade. Ademais, acredito que nenhuma caixa gostaria de ser esta caixa, que abriga e protege a desgraça, que explicita a deterioração do corpo em sua estampa. Isso não é um bom enfeite ou requinte. Sou protegido do Sol e da chuva dentro da caixa. Quando me acendem inicia-se o ápice do meu tempo vital, de minha vida útil. E enquanto me sorvem, me sinto quente, nem dói tanto, fui feito para isso. A minha preocupação é a dor que meus irmãos e eu causaremos no ser. 

E depois da última tragada, nem enterro digno tenho. Sou desprezado e jogado na rua e às vezes fico mal apagado. Meu corpo fica jogado e se esfarelando com o tempo. A nossa única honra, talvez, seja morrer do lado dos nossos irmãos, com sorte em um cinzeiro, o nosso verdadeiro caixão mortuário. 

Essa é a vida de um cigarro, do conforto à provocação de um suicídio, de tragadas ao abandono. Quem me dera eu fosse qualquer outra coisa, mas a vida me destinou a putrefação do corpo e da alma humana. 

A.M.O.R. 
(Ana Moraes de Oliveira Rosa)

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