sábado, 2 de agosto de 2014

O refúgio de René Fernandes em Tatuí

Arquiteto revela elegância e bom gosto no décor

02/08/2014 | POR SERGIO ZOBARAN; FOTOS RICARDO LABOUGLE


Despretensioso, o sítio do arquiteto René Fernandes no interior paulista recicla móveis de família e materiais de demolição em um conjunto feito para aproveitar ao máximo as benesses da vida no campo

CASA VOGUE - Parte de uma fazenda que viveu seus anos dourados em torno de uma grande sede, o pedaço de terra que coube em herança ao arquiteto René Fernandes foi o suficiente para fazê-lo feliz para sempre. O sítio em Tatuí, no interior de São Paulo, onde hoje passa os fins de semana, possuía duas construções – as cocheiras dos garanhões – e mais um monte de ipês e bauhínias, oriundos do viveiro plantado pela irmã paisagista. No mais, além de sua vontade de construir, faltava-lhe pretensão e sobravam coisas guardadas que poderiam se juntar no momento de erguer a casa dos sonhos. “Por três anos, levantei uma construção barata e de forma simples, seca”, relembra René, que fez seu projeto baseado naquilo que já tinha: janelas de demolição, como as da residência da avó, e outros restos de materiais de obras, como a caixilharia de um ambiente assinado por ele na Casa Cor. Na mesma receita de reciclagem, muitos móveis de família, tanto de casa quanto da clínica do pai médico e caçador, que lhe legou a coleção de chifres de suas presas, e inúmeros objetos utilitários ou de decoração que ia comprando para, quem sabe, um dia...

Qual o resultado dessa acumulação, durante anos, até a segunda década dos anos 2000? Um confortável refúgio de 300 m², pintado por fora de um azul-céu em seus dois andares. Há uma ampla sala com jeito de galpão coberto por telhas onduladas e termo acústicas e mais dois quartos no térreo, e apenas a suíte principal no segundo piso, onde se sente ainda mais paz para além do gramado. As velhas cocheiras, agora unidas, abrigam a sala de jantar e a cozinha, com dois fogões a lenha: aquele onde é preparado um franguinho orgânico, um bom arroz e feijão e acompanhamentos pelo casal de caseiros, e outro que serve de réchaud e de lareira.

Detalhe da sala de jantar ressalta uma cadeira de Scapinelli, o piano comprado em um Família Muda-se, as cabeças de animais caçados pelo pai de René Fernandes e um quadro oval de flores, pintado por sua mãe

René jogou a casa para os fundos do terreno: “Voltei-a para o norte. Então, tenho o sol entrando na sala até o meio-dia. E, à noite, é a lua que a ilumina”. Do lado de fora a maior parte do tempo, “aproveitando ao máximo a luminosidade”, o anfitrião e os hóspedes curtem longos cafés da manhã na varanda e fartos passeios a pé pelas alamedas, com os cachorros, ou a cavalo, ou ainda de bicicleta. E nadam no lago, a piscina natural do lugar. No pomar estão as romãs, os figos e as mangas, e a horta produz de tudo: “É ali que faço a feira”, brinca o dono.

Do lado de dentro, a decoração que mistura o novo e o velho acontece sem conflitos. Afinal, René não é um chic de hoje: além das peças de design e dos bons móveis e acessórios contemporâneos, ele curte uma antiguidade, o usado e o reutilizado, a herança bem guardada, os presentes dos amigos, o que é bom de qualquer época, com ou sem data, com ou sem grife. Aqui estão valendo móveis, objetos e tecidos atuais importados ou da indústria nacional. Cadeiras, bancos e assentos em geral dos anos 1950, 1960 e 1970, de Scapinelli a Zanine – e também os de hoje. Lustre de cristal de época e luminária assinada pelo alemão Ingo Maurer. Telas vintage que retratam a família e fotos de artistas amigos. Tapete arrematado em leilão, gadget de lojinha de museu e piano comprado em Família Muda-se. Chapéus arranjados por aí...


Fogão a lenha que virou réchaud e lareira ao mesmo tempo. Na parede, taxidermia de javali e outra, falsa, da loja do Victoria & Albert Museum


No canto onde a sala de jantar encontra a cozinha, há um sofá sueco (anos 1960), com tecido do Empório Beraldin, abaixo de um retrato da avó paterna de René e sobre um tapete adquirido em leilão


O living tem conjunto formado por um aparador antigo com um abajur de Simone Figueiredo, diante da parede com desenho de Zaragoza, foto de Renata Jubran e chifres diversos – ao fundo, o hall de entrada traz mesa e espelho da Conceito: Firma Casa


René Fernandes e seus labradores


A sala de jantar possui cadeira medalhão e outras, de Scapinelli, além de aparador estilo Luís Felipe e lustre dos anos 1930


Suíte no segundo andar, com estrutura e forro de madeira e esquadrias das janelas vindas de uma demolição, traz cômoda que foi do pai de René, sofá da antiga sede da fazenda, lustre de cristal e móvel de contador antigo, tipo prancheta


Lago onde se nada, piscina natural da casa


A fachada da casa, com redes para o descanso dos convidados e moradores


A área íntima da casa volta-se para o norte, aproveitando a luz do sol e da lua


O terraço com cadeiras suspensas e bancos, para tomar a brisa dos fim da tarde


O canto aconchegante conta com sofá de couro em capitonê


No fogão a lenha, as refeições demoradas convidam à convivência com os amigos


Detalhe do hall de entrada da morada


Acima do aparador de estilo rústico, a coleção de taxidermia herdada do pai caçador


Quarto de hóspedes em tons de azul, com destaque para as gravuras de pássaros


Café da manhã e almoço são servidos ao ar livre


Detalhe do banheiro com pastilhas azuis

Nenhum comentário:

Postar um comentário