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sábado, 26 de julho de 2014

Ultima parada de turistas africanos foi Tatuí

Turistas africanos aprovam futebol e feijão após tour pelo Brasil
Grupo de Madagascar composto por 40 pessoas diz se encantar com o país.

Caio Gomes Silveira
Do G1 Itapetininga e Região

Grupo em Copacabana, no RJ, e em frente ao Museu Paulo Setúbal, em Tatuí (Foto: Arquivo Pessoal)

O município de Tatuí (SP), cidade localizada há cerca de 140 quilômetros da capital paulista, se tornou a última parada de um grupo de africanos de Madagascar que veio ao Brasil para assistir a Copa do Mundo. Ao todo são 40 pessoas de diversas igrejas evangélicas. Vinte deles fazem parte de um coral musical e o restante são familiares. Antes de chegar à cidade do interior paulista, o grupo ficou duas semanas no Rio de Janeiro. Nas duas cidades ficaram hospedados em igrejas e têm se apresentado em diversos locais para conseguir dinheiro para se manter. Eles estão no país desde 2 de julho, e retornam à Madagascar nesta segunda-feira (28).
Africanos comentam sobre experiência da viagem no Brasil (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

Em entrevista ao G1, alguns integrantes do grupo contaram o que acharam do país. Além de belas paisagens e o povo simpático, outra unanimidade é o feijão. O grão nunca antes experimentado por muitos deles é uma das grandes surpresas da viagem, garante a contadora, missionária e cantora do coral Soafara Razafindrazato. “Quando cheguei e vi tudo o que há aqui eu fiquei tão feliz. Tudo é tão bonito. As cidades, por exemplo, são urbanizadas e há bastante casas. Pelo menos em Tatuí e no Rio de Janeiro. As pessoas nos tratam bem, fazem questão de mostrar as coisas daqui, são muito simpáticas. E há o feijão que é uma delícia! Em Madagascar  costumamos comer arroz branco sem sal e cebola, carne e água. Já aqui há muita diversidade. O que não gostei foi a quantidade de açúcar usado no chá, café e suco. São muito doces. Essa aliás, é a única coisa de que não gostei”, brinca.

O turista Adrianary Victor Gerard também se diz encantado por conhecer o Brasil. Assim como Soafara, tem apenas uma reclamação da viagem: perder o passaporte. Ele passou dias de agonia a espera de que alguém achasse o documento e pudesse voltar para casa. Gerard percebeu a falta do passaporte logo após chegar ao Rio de Janeiro. Vindo da Africa, o grupo desembarcou no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e partiu de ônibus para a capital carioca.
No jornal, era mostrado um país em caos. Falava-se muito em falta de segurança e protestos violentos. Quando disse que viajaria, meu pai e irmão me pediram para não ir, disseram que talvez nem acontecesse a Copa. Isso me deixou nervosa, mas quando cheguei percebi que a imagem passada lá é o oposto da realidade"
Soafara Razafindrazato, turista africana

Ele fez boletim de ocorrência, procurou nos achados e perdidos dos terminais rodoviários, tentou com familiares tirar uma segunda via do documento no país onde mora, e até manteve contato com a embaixada de Moçambique em Brasília (DF) já que Madagascar não possui embaixada ou consulado no Brasil e na América Latina. Mas de nenhum modo poderia resolver o problema a tempo de poder viajar com o resto do grupo. “Todos os processos iriam demorar mais que até a data da viagem. Estava bastante agoniado, muito triste, em pânico. Tenho esposa e uma filha esperando por mim, então, não vejo a hora de chegar em casa. Mas graças a Deus voltamos a ligar na rodoviária de Rio de Janeiro na tarde desta quinta-feira [24] e o documento foi encontrado. Foi um alívio. Agora é só alegria!”, ressalta.

O estudante Mendika Menji disse que não levará nenhuma imagem negativa do Brasil. Para ele, os pontos positivos são muitos: as pessoas, cidades bonitas, a comida e as pistas de skate. “Em Tatuí, a quantidade de pessoas nas ruas é bem menor que o Rio de Janeiro, onde todos os locais estão sempre movimentado. Mas nos dois lugares o povo é igual: todos são alegres, muito sociáveis. Percebi também que muita gente faz exercícios físicos. O povo parece procurar ter uma vida saudável, isso porque as pistas de skate estão sempre lotadas, assim como as ruas que são cheias de pessoas caminhando, correndo ou andando de bicicleta. Sem contar o futebol, que é de longe o esporte mais popular.”
Moreno posa com camisa do Timão; ele diz ser fã do futebol brasileiro (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

Futebol, aliás, é um dos itens de que o pastor do grupo e técnico de futebol amador, Moreno Ramaroson, mais gostou no Brasil. Vestindo uma camisa do Corinthians, ele conta que a população de Madagascar é apaixonada pela seleção brasileira. “Quando se fala em Brasil logo se pensa na seleção. Todos adoram ver a seleção brasileira. Então ficamos muito surpresos assistindo a derrota para a Alemanha por 7 a 1. Mas acredito que o Brasil tinha um bom time, mas o emocional foi um problema: era como se 200 milhões de pessoas estivessem nas costas dos jogadores. Eles sentiram a responsabilidade. Mas se a Copa tivesse acontecido em outro lugar, acho que o Brasil tinha todas as condições de vencer”, opina.

Além da derrota para a Alemanha, o grupo assistiu também o jogo entre Brasil e Colômbia, pelas quartas de final. Soafara conta que se surpreendeu pela quantidade de pessoas vestindo a camisa da seleção e as bandeiras que enfeitavam as casas. “Todos vestem o amarelo e enfeitam as casas com bandeiras e adornos verde-amarelo. Realmente é impressionante o quanto as pessoas gostam da seleção e fazem questão de mostrar que amam o país onde moram. Assistimos ao jogo entre Colômbia e foi uma grande festa. Já no segundo jogo não tivemos chance!”, brinca.
Gerard (esq.), turista que perdeu o passaporte, e Lucas (dir.), morador que convidou grupo a se
hospedar em Tatuí (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

Língua portuguesa
Outra paixão da africana Soafara é a língua portuguesa. Entre os integrantes do grupo, ela é a pessoa que mais estudou e memorizou as palavras. Até mesmo conseguiu improvisar algumas frases. As línguas oficiais de Madagascar são o Malgaxe, idioma local, e o francês, idioma adotado pela colonização dos franceses. O inglês, mesmo não sendo oficial, é considerada a terceira língua do país. “O português do Brasil tem uma sonoridade bonita. É um pouco parecido com o francês, então, tive certa facilidade. Outra coisa que ajuda é a mimica, as pessoas conversam gesticulando, o que facilita o entendimento dos turistas.”

Antes de sonhar em visitar o Brasil, a língua portuguesa também era uma paixão de Gerard, o baixista do coral que perdeu o passaporte. O africano diz ser fã de Gilberto Gil e tentava tocar as músicas do ídolo. “Lá pelas décadas de 70 e 80, quando aprendia baixo, eu ouvia as músicas do Gilberto em um disco de vinil e tentava reproduzir. Sou um grande fã da música brasileira, do samba, da bossa nova. É uma das coisas que mais gosto daqui”, revela.
Lambahoany é um traje típico usado em Madagascar (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

Imagem do país
Além da relação com o futebol, os turistas dizem que o Brasil era mostrado pela mídia local como um lugar perigoso, devido aos protestos e favelas. Soafara admite que se sentiu apreensiva antes da viagem: “Quando assistia ao jornal, era mostrado um país em caos. Falava-se muito em favelas, da falta de segurança e de protestos violentos. Até mesmo quando disse que viajaria à minha família, meu pai e meu irmão me pediram para não ir. Disseram que talvez nem acontecesse a Copa por causa dos problemas. Isso me deixou nervosa, pois não queria ser sequestrada, roubada, ter algum trauma deste tipo. Mas quando cheguei, percebi que a imagem passada lá é o oposto da realidade, não tivemos nenhum problema”, afirma.

Outra imagem que não corresponde à realidade, segundo o pastor Ramaroson, é o descarado uso e tráfico de drogas. “Na televisão é falado que o uso de drogas é muito grande, e que nas ruas é comum presenciar cenas de tráfico. Mas a realidade é completamente diferente. Na minha opinião, 99% do povo brasileiro são pessoas do bem, felizes e muito solidárias. Além disso são religiosas. As igrejas são bonitas pois estão sempre cheias de pessoas”, ressalta.


Grupo musical
Dos 40 integrantes da viagem, 20 fazem parte da banda chamada “Tana Ghospel Choir”. Em tradução para o português: Coral Evangélico Tana. A palavra Tana é a abreviatura da cidade Antananarivo, capital e maior cidade do país, onde a maioria dos integrantes mora. O grupo fez diversos shows no Rio de Janeiro e em Tatuí, em igrejas e locais públicos. Durante as apresentações eles usam uma roupa típica de Madagascar chamada de Lambahoany. Trata-se de um pano comprido, parecido com uma tanga, colorido e estampado com figuras naturais, como flores e animais. Segundo eles, há diferenças do uso do traje: os homens o utilizam preso ao ombro, e as mulheres ao peito.(Assista o grupo apresentando a canção evangélica "Oye!")

O morador de Tatuí que convidou o grupo para se hospedar na cidade, o psicólogo Lucas Campos, conta que o coral faz sucesso por onde passa. Lucas morou por um ano e meio na Africa do Sul para estudar e como missionário da igreja e lá fez amizades com alguns integrantes do grupo. “Como eles cantam músicas em malgaxe, dançam usando trajes típicos, chamam muito a atenção do público. É um sucesso, e eles adoram cantar e tocar. Se deixar eles fazem apresentações em três horários do dia e cada uma com mais de duas horas de duração. Temos até que dar uma cortada neles para não se desgastarem tanto, pois eles não sabem dar não às pessoas”, conta.
G1 acompanhou apresentação musical de coral evangélico (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

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