domingo, 6 de abril de 2014

José Wilker estava feliz com desempenho de Vera Holtz em sua peça

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*

O Brasil descobriu, assustado, na manhã deste sábado (5), a partida abrupta do ator José Wilker. Ele foi vítima de um infarto fulminante na casa da namorada, Claudia Montenegro, em Ipanema, no Rio. Tinha apenas 66 anos.

Na última vez que vi José Wilker, ele estava sorridente, no saguão do Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo. Moderno como sempre, tinha tênis All Star vermelhos nos pés. Estava satisfeito com a estreia de sua peça Palácio do Fim, com Vera Holtz em grande desempenho no palco.

Wilker sorria e abraçava a todos, que celebravam com ele aquela peça que falava do absurdo da guerra. Dizia obrigado com sua voz grave inconfundível. Sempre jovem, de All Star vermelho nos pés: José Wilker, em 2012, no saguão do Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo: felicidade em dirigir teatro na peça Palácio do Fim. O crítico teatral carioca Macksen Luiz afirma ao R7 que Wilker fez nesta obra “uma direção impecável”. Foto: Celso Akin/AgNews



– Em Palácio do Fim ele mostrou novamente a solidez que tinha como artista, como homem de teatro. O Wilker começou nos palcos, só lamento que ele tenha feito mais TV ao longo da carreira e não explorado tanto essa grandeza que ele tinha no teatro.

No Festival de Teatro de Curitiba, que termina neste domingo (6), a morte do ator foi recebida com assombro.

Leandro Knopfholz, diretor do evento que foi interrompido com a informação da morte durante a entrevista coletiva de balanço final, afirmou que “Wilker era amigo do Festival”. E lembrou de sua participação no evento em 2009, com uma peça dirigida por Jô Soares.

– Quando ele fez a peça A Cabra ou Quem É Sylvia, o cenário atrasou e só conseguimos montá-lo 30 minutos antes de a sessão começar. E ele foi de um profissionalismo incrível. Além disso, no começo da carreira dele, ele fez uma peça com a minha mãe [a atriz Ester Troib Knopfholz]. Que pena. É uma grande perda para o Brasil.




José Wilker (de óculos), com Fauzi Arap, Glauce Rocha, Clarice Lispector e Dirce Migliaccio conversam sobre adaptação da peça Perto do Coração Selvagem, em 1965 - Foto: Carlos/Cedoc/Acervo Funarte





Trajetória politizada

Cearense de Juazeiro do Norte, José Wilker fez parte do Movimento de Cultura Popular em Recife na década de 1960, com espetáculos experimentais e politizados junto ao Partido Comunista, com o objetivo de “conscientizar a classe operária”. Com o golpe militar, em 1964, transferiu-se para o Rio, onde logo fez parcerias com nomes como Marília Pêra e Dulcina de Moraes. No Grupo Opinião, dirigido por João das Neves, marcou época na peça Antígona, em 1968. Em 1969, é premiado com o Molière de melhor ator por seu desempenho em O Arquiteto e o Imperador da Assíria.

Na década de 1970 fez espetáculos considerados de vanguarda, como Hoje É Dia de Rock, de José Vicente, ícone dos palcos e da juventude daquela época.

Em meados da década de 1970, é descoberto pela televisão, na qual logo se torna um galã reconhecido e admirado no mundo todo. Fez importantes papeis no cinema: em 1976, fez Vadinho em Dona Flor e Seus Dois Maridos, filme de Bruno Barreto, adaptado do romance de Jorge Amado, que foi recordista de bilheteria. Fez o famoso triângulo amoroso com Sônia Braga e Mauro Mendonça. Em 1979, atuou em outro clássico Bye, Bye, Brasil, de Cacá Diegues.

Na década de 1980, se reaproximou dos palcos, assumindo a direção da Escola de Teatro Martins Pena, ao lado de Aderbal Freire-Filho e Alcione Araújo. Em 1985 volta a encenar uma peça, Assim É (Se lhe Parece), dirigido por Paulo Betti. Mais uma vez ganhou o Molière.

Emenda várias peças e faz sucesso em 1994 com Querida Mamãe, de Maria Adelaide Amaral. Na mesma década produz e protagoniza o filme Guerra de Canudos, dirigido por Sérgio Rezende, um dos marcos da retomada.

Galã

Na televisão, logo o ator engajado virou galã. Desde a primeira novela, Bandeira 2, em 1972, fez papeis memoráveis, como o presidente Juscelino Kubitschek na minissérie JK(1996) ou o empresário Fábio na minissérie Anos Rebeldes (1992). Foi ainda Mundinho Falcão na primeira versão de Gabriela (1975) e Roque na novela Roque Santeiro(1985), quando contracenou com Regina Duarte e Lima Duarte.

Um de seus papeis mais populares na TV foi o bicheiro Giovanni Improtta, na novelaSenhora do Destino, de Aguinaldo Silva, em 2004. O personagem fez tanto sucesso que virou filme. Seu último papel foi Herbert, na novela Amor à Vida, que terminou neste ano.

José Wilker deixa três filhas: Isabel, Mariana e Madá.




José Wilker (1941-2014): um ator com conteúdo que virou galã da TV





*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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